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Em artigo publicado na revista Civilização Brasileira, intitulado Hegemonia burguesa e independência econômica (1968), FHC analisava o golpe empresarial-militar no Brasil. A sua análise mantinha elementos que ele havia desenvolvido em sua tese de doutorado (Empresariado nacional…) e, em especial, em seu trabalho Dependência e desenvolvimento na América Latina, que foi elaborado com o sociólogo Enzo Falletto, em 1967, como parte das reflexões que a CEPAL vinha revendo sobre a sua perspectiva nacional-desenvolvimentista.

FHC não desconsiderava o grande arco de alianças realizado para o golpe militar que envolvia os setores latifundiários (burguesia rural), amplas faixas da classe média tradicional, além da igreja católica. Mas eram as frações mais dinâmicas daquela, então “burguesia brasileira”, associada com o imperialismo, que conseguiram articular o golpe político.

O golpe de Estado de 1964 teria assinalado uma transição para o modelo de desenvolvimento econômico associado, implicando realinhamento de empresas brasileiras e estrangeiras, como também a interdependência cultural e militar, com os Estados Unidos. Ao lado da burguesia brasileira, a base social principal para esse golpe de Estado apresentou-se na classe média, que associou sua estabilidade econômica ao combate ao comunismo. Essa camada social teria se desenvolvido principalmente nos setores terciários (setores de serviço, comércio e burocracia pública e privada), com o processo de urbanização e industrialização, e estaria premida pela impossibilidade de elevarem seu padrão de vida e consumo.

A composição heterogênea e a formação recente, associadas às exigências da política de massas conduzida por outros grupos sociais, favoreciam a criação e a persistência de uma consciência de mobilidade. Isto é, favoreciam a formação de um comportamento individual ou grupal voltado principalmente para a conquista e consolidação de posições na escala social. Durante êsse período e nessas condições, a atividade política do proletariado – como coletividade – está muito organizada em têrmos de consciência de massa. Os intêresses de classe, em particular os antagonismos com as outras classes e grupos sociais, não se estruturam a não ser parcialmente. E não chegam a fundamentar posições e diretrizes políticas autênticamente proletárias, isto é, de classe.[4]

a esquerda brasileira ficou como que “aprisionada”. As técnicas da política de massas e o reformismo, conduzidos pelos setores mais audaciosos da política de industrialização, estabeleceram os limites e as condições tanto da politização como da atuação política do proletariado urbano, de certos setores da classe média, dos estudantes universitários e, depois, do proletariado agrícola. Em conseqüência, viveu oscilando entre as recordações do marxismo e as exigências da democracia populista. O fato é que ela não foi capaz de transformar a política de massas numa política de classes. Não formulou nem implantou uma interpretação alternativa que correspondesse às possibilidades histórico-estruturais e não sucumbisse ao fascínio da ideologia getuliana.[5]

Desenvolvimento com dependência estrutural: do CESIT ao  ILPES Cepal

a “dependência estrutural”, tal como a concebemos, se distingue do conceito de  “dependência externa”  utilizado pelos economistas e da ideia que existe um “setor estrangeiro”  nas economias subdesenvolvidas. Evidentemente, tanto existe uma “dependência externa”, com graus variáveis, quanto um setor econômico estrangeiro (…) Entretanto, essa diferenciação parece modificar-se quando a economia interna se internacionaliza, isto é, quando passa a operar estruturalmente vinculada ao modo internacional de produção industrial-capitalista, adotando suas técnicas produtivas e mantendo relações do controle acionário nacional ou externo.[7]

Dependencia e desarrollo en la america latina
Primeira edição – 1968

a situação estrutural que dá sentido à ação desses grupos é a que foi descrita neste trabalho e, portanto, as burguesias internacionalizadas continuaram sendo o eixo do sistema de dominação. Entretanto, na situação latino-americana, a partir do chamado período de transição, a expressão política da burguesia urbano-industrial – diferença das burguesias agro-exportadoras do passado –  esteve mais diretamente vinculada ao Estado através de grupos de pressão ou da ocupação de cargos no aparato estatal, que à existência de `partidos de classe’. [11]


[1] CARDOSO, Fernando Henrique. Hegemonia burguesa e independência econômica: raízes estruturais da crise política brasileira. Civilização Brasileira, nº17, jan/fev 1968. p.94

[2] IANNI, Octavio, pp.55-56  O colapso do populismo , Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

[3] Idem., p.66

[4] IANNI, Octávio. O colapso do populismo. 4ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p.61

[5] Idem. p.98

[6] Idem. p. 154-156

[7] CARDOSO, Fernando Henrique. Política e desenvolvimento em sociedades dependentes. Ideologias do empresariado industrial argentino e brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. p.178

[8] Dependência e desenvolvimento na América Latina é composto por um prefácio dos próprios autores, seis capítulos e uma seção final de conclusões. Os capítulos são os seguintes: Introdução; Análise integrada do desenvolvimento; As situações fundamentais no período de “expansão para fora”; Desenvolvimento e mudança social no momento da transição; Nacionalismo e populismo: forças sociais e política desenvolvimentista na fase de consolidação do mercado interno; A internacionalização do mercado: o novo caráter da dependência. O livro pode, entretanto, ser dividido em duas partes. A primeira, que vai da abertura ao segundo capítulo, e a segunda, que vai do terceiro à conclusão. Na primeira, os autores procuram defender uma “análise integrada do desenvolvimento”. Na seguinte, acompanham os passos da periodização cepalina – “expansão para fora”, “momento de transição”, “consolidação do mercado interno”, “internacionalização do mercado” – e procuram executar o estilo de análise que propuseram. Nesta segunda parte, algumas noções jogam papel relevante na arquitetura do livro. Por exemplo, as duas situações fundamentais no período de “expansão para fora”: as economias com “controle nacional do sistema produtivo” e as “economias de enclave”. Com efeito, no período de transição para o chamado “desenvolvimento para dentro”, esse critério cinde em dois grupos os países. Por isso, ao tratarem, no quarto capítulo, do “Desenvolvimento e mudança social no período de transição”, contemplam os casos argentino, brasileiro, uruguaio, colombiano de um lado; e os casos mexicano, venezuelano, boliviano, chileno, peruano e da região central, em outro grupo.

[9]  Fernando Henrique Cardoso havia saído do Brasil por ocasião do golpe militar em 1964, trabalhou na Cepal e com Alain Touraine, na França, no Centro de Investigação em Sociologia do Trabalho. Retornou para o concurso da Cátedra de Política em 1968 e, sendo aprovado, logo seria aposentado compulsoriamente. Sua estada no Chile, entre 1966 e 1967 no ILPES, seria decisiva para a produção de uma das obras de maior impacto em sua carreira, envolvendo-o em muitos debates, opondo-o a outras vertentes interpretativas da ‘dependência’ e contribuindo para sedimentar com prestígio seu nome entre os pares.

[10] CARDOSO, Fernando Henrique e FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento econômico na América Latina.  Ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Guanabara, 1970. p.142

[11] Idem.p.134

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