Os protestos de junho de 2013 no Brasil continuam sendo tema de debates. A principal importância do tema, no entanto, não está afeito ao meio acadêmico, mas sim aos movimentos sociais e à esquerda socialista e revolucionária. Isso porque, ao nosso entender, aqueles acontecimentos nos ajudam a entender um novo ciclo político nas lutas de classe que nos envolvem ainda hoje.
Aquele momento significou uma das maiores mobilizações sociais no país em anos, com confrontos contra a repressão policial militar e a surdez dos governos municipais, estaduais e federal às reivindicações populares. Também significou um período no qual se abriu um novo cenário político (nova correlação de forças), diferente dos 10 anos de conciliação de classes por meio da frente política orientada pelos governos petistas (2003-2013).
A partir de então abriu-se um período de cada vez maior polarização entre as classes sociais: movimentos sociais que seguiram nas ruas contra os megaeventos esportivos (2013-2016), legislação criminalizando movimentos sociais (2015), rompimento da burguesia com a frente política governista e perda de base social popular do Governo e do PT, impeachment de Dilma Rousseff e prisão de Lula, reestruturação do bloco de poder de Estado em torno do programa neoliberal Uma ponte para o futuro, Reforma Trabalhista e Previdenciária, intervenção militar no Rio de Janeiro (via GLO) e assassinato de Marielle Franco, eleição de Jair Bolsonaro e o crescimento acentuado da ultradireita.
Esse novo cenário político, evidentemente, não significou uma linerialidade nos acontecimentos: “nada estava escrito nas estrelas”. A nova correlação de forças contraiu-se em diversas perspectivas, no entanto, o vetor central empurrava o governo petista para uma tendencial perda de base social e política. As ruas foram disputadas com distintos projetos no cenário que se abria: a) a frente popular petista, de maneira vacilante, ainda conseguiu manter/trazer para si diversos setores sociais e da esquerda institucional, no período da campanha do impeachment, b) as chamadas classes médias, alavancadas pela direita e ultra-direita, passaram a disputar as ruas com bandeiras contra a corrupção e defesa da Lava Jato, passando rapidamente para incluir também as bandeiras de impeachment, volta dos militares ao poder, c) a esquerda revolucionária, em especial o PSTU, com grandes dificuldades tentava manter como principal eixo nas ruas as bandeiras e reivindicações populares, em aberta conjuntura de polarização política (governo versus direita/ultra-direita).
No plano internacional, o período esteve atravessado, por um lado, por uma profunda crise capitalista vinda de 2007-2008 e que se acentuou a partir de 2010, envolvendo o Brasil em um ciclo de crises que foram se acentuando. Por outro lado, o contexto internacional esteve marcado por uma série de protestos e revoluções políticas, como a Primavera Árabe, Occupay, Massacre do Midan (Ucrânia, 2014) . No plano nacional, abria-se o ciclo de megaeventos: Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo de Futebol (2014) e Olimpíadas (2016).
O junho daquele 2013, embora tenha condensado um novo período político, ao nosso entender não pode ser mitificado como um suposto “virtuosismo social”, nem pode ser “culpado” pelo crescimento da ultradireita no país. Aquelas manifestações foram o que foram: “apenas” um ponto de inflexão no cenário político da época e que moldaram desdobramentos cujos efeitos permanecem até hoje. Estiveram associadas a diversas perspectivas ideológicas, políticas e organizativas, mas inicialmente orientadas por bandeiras sociais progressistas carregadas por uma juventude de camadas médias baixa e de trabalhadores precarizados. Acima de tudo expressaram o que deveria ser um mantra para toda a esquerda: os governos e partidos que se propõem a realizar a ilusória “conciliação entre as classes sociais” estão sempre fadados ao fracasso, e quem sai perdendo são os trabalhadores e a maioria da população.
A premissa central deste trabalho é que aqueles eventos não foram “um raio em céu azul”, nem foram mobilizações apenas contra o reajuste de R$ 0,20 nas passagens de ônibus, trens e metrôs. Muito menos se apagaram na história; pelo contrário, estão presentes até hoje, em muitas formas de organização política à esquerda e à direita. Aqueles acontecimentos condensavam em si necessidades de mudanças sociais e políticas estruturais que já estavam em curso na sociedade brasileira e que tiveram desdobramentos subsequentes. O que fizeram naquele período os governos petistas foi frear tais necessidades e mitigá-las como puderam.
A seguir, apresento algumas linhas gerais deste trabalho, que serão detalhadas em artigos posteriores.
A retomada das ruas
Os protestos e seus desdobramentos fazem parte de um período de intensificação de lutas sociais (camadas e classes sociais), que se diferenciaram das formas políticas desenvolvidas a partir do final da década de 1970 no país. Tiveram formas específicas de organização e ideologia, diferentes de períodos anteriores. As ruas são retomadas como principal palco das frustrações, reivindicações e lutas. No entanto, esses eventos de 2013 colocaram em xeque as formas de organização, ideologias e perspectivas políticas que foram fundamentais no período de lutas contra a ditadura militar e no processo de reconquista das liberdades políticas no país.
Com o enfraquecimento ideológico do movimento classista e das esquerdas socialistas, dois movimentos principais surgiram a partir de 2013. De um lado, houve a cristalização de movimentos sociais de caráter horizontalista e autonomista, com bandeiras sociais progressistas, que oscilaram entre a negação das formas institucionais e a incorporação à lógica institucional eleitoral. De outro, retornaram ao cenário público as camadas médias e a pequena burguesia urbana, agora organizadas em torno de uma perspectiva política de direita, marcada pelas bandeiras contra a corrupção, a raiva contra a esquerda política (simbolizada no petismo) e pela rejeição ao sindicalismo e aos movimentos identitários.
O cenário político pós-junho de 2013
O cenário político pós-junho de 2013 foi moldado por essas camadas e classes sociais, pois elas sintetizaram mudanças que vinham se acumulando silenciosamente na sociedade brasileira, bem como em seus humores e frustrações.
A origem desses protestos e suas transformações ao longo do tempo estão relacionadas à maneira como camadas sociais médias, a pequena burguesia urbana, trabalhadores precarizados e frações da burguesia passaram a atuar politicamente a partir daquele período. Através de seus mediadores políticos — como o Movimento Passe Livre, os Comitês Contra os Megaeventos esportivos, as mídias empresariais, o Movimento Brasil Livre, o Vem Pra Rua e os Revoltados Online — essas camadas sociais ocuparam as ruas e as redes sociais como principais arenas de mobilização.
As ruas tornaram-se o palco de reviravoltas políticas importantes, culminando em manifestações contra o governo Dilma e o PT. As manifestações de rua, que se tornaram recorrentes, revelaram duas faces. Por um lado, trouxeram à tona frustrações de setores sociais populares e expuseram o lado oculto dos dez anos de governos “populares”, levantando bandeiras progressistas, como saúde, educação e transporte público. Por outro, canalizaram o “ódio” difuso de estratos médios da população, conformando a base social e legislativa (Centrão) que não apenas sustentaria o impeachment de Dilma, mas também daria continuidade às reformas anti operárias e antipopulares do trabalho e previdência.
Um novo cenário político
As redes sociais, que desempenhavam um papel secundário para os movimentos sociais, emergiram como canais de mobilização e disseminação de ideias, polarizando ainda mais o debate político.
A partir de junho de 2013, duas vertentes de manifestações de rua se destacaram no cenário político brasileiro.
A primeira vertente foi representada pelas manifestações contra os megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que exigiam que os recursos públicos investidos nesses eventos fossem redirecionados para áreas como educação, saúde e moradia. Essas mobilizações já vinham sendo organizadas antes de 2013 e materializaram-se nos Comitês Contra os Megaeventos. Ocorriam em várias capitais e ecoavam as demandas originais de junho de 2013, com ampla participação de setores populares, estudantes e trabalhadores precarizados. Foram intensamente reprimidos, e muitos de seus integrantes foram monitorados, presos e processados, com ações judiciais que perduram até hoje. Parte desses manifestantes, terminaram mobilizados pela Frente Brasil Popular (FBP), contra o impeachment de Dilma.
A segunda vertente vinha se configurando antes de 2013, como no caso do movimento “Cansei” (2010), articulado na capital paulista por setores sociais médios contra a corrupção. Essa vertente aparece nas manifestações de junho e com muita força entre 2014 e 2016, impulsionada pelos resultados eleitorais presidenciais, pela Operação Lava Jato e pela orquestração da mídia empresarial. O caldo ideológico estava formado com a ampliação da participação dos setores das classes médias e da pequena burguesia, contrários ao governo Dilma Rousseff e à corrupção. Alimentadas pela insatisfação com a crise econômica e pela percepção de corrupção no governo, essas manifestações, amplamente apoiadas pela mídia empresarial, culminaram no processo de impeachment.
Enquanto a primeira vertente representava um vetor progressivo, exigindo a ampliação de direitos sociais e contra a criminalização dos movimentos sociais, a segunda foi marcada por um vetor regressivo e conservador, que, de maneira enraivecida e confusa, atacou as políticas sociais, apoiou o fim da taxação de impostos e favoreceu a ascensão de uma nova direita no Brasil.
Junho de 2013 e seus desdobramentos configuraram um novo cenário político e social, cujas consequências ainda perduram. Teriam os protestos plantado as sementes da ascensão da ultradireita no Brasil? O que esses acontecimentos revelam sobre o presente e o futuro político do país?
A continuação…
A série de artigos a ser publicada neste site se propõe a examinar distintos aspectos desses eventos de junho de 2013 e suas consequências. Através da análise de fontes documentais, depoimentos de manifestantes, dados estatísticos e estudos acadêmicos, exploraremos como esses eventos se conectaram às transformações estruturais da sociedade brasileira e aos desafios políticos e sociais do presente.
