A crescente presença naval militar no Mar do Caribe representa a maior mobilização estadunidense na região, pelo menos desde 1989[1]. Essa nova investida imperialista sobre a América Latina tem deixado dezenas de mortes em ataques a tripulações de pequenas embarcações nas costas da Venezuela, estendendo-se também para o Pacífico, em águas colombianas. O “mote” trumpista é o de que se tratam de narcotraficantes ligados a “grupos terroristas internacionais”, como Tren de Arágua e outros. Esse cenário indica um ataque violento e contínuo à soberania e à autodeterminação dos povos venezuelano e colombiano. Sinaliza que tais agressões não serão eventuais, mas permanentes – e que tendem a se expandir para além desses dois países. O quadro repõe e intensifica o sentimento anti-imperialista, associando o trumpismo à ultradireita entreguista da região e ao histórico de agressões imperialistas estadunidenses.
Introdução
As ameaças de ataques militares ao território venezuelano, repetidamente anunciadas por Trump e seus assessores desde meados de outubro, teriam como pretexto destruir as bases do narcotráfico e depor o seu suposto líder, Nicolás Maduro. Embora tal ação direta pareça improvável – diante de riscos imprevisíveis para o próprio imperialismo e para a oposição venezuelana pró-trumpista -, o destino político de Maduro ainda é incerto. Seu regime, sustentado no comando militar, é amplamente impopular, corrupto e repressivo, inclusive sobre os setores sindicais e de esquerda. Essa combinação o fragiliza e torna incerto seu futuro, levando-o a intensificar ainda mais a repressão contra as opiniões críticas e mobilizações por reivindicações salariais e políticas.
A estratégia central do trumpismo, até o momento, é a deposição do presidente venezuelano, conduzida pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Para esses setores, não bastaria o entreguismo das riquezas energéticas e naturais para as empresas estadunidenses – como já oferecido em negociação por assessores de Maduro – , mas sim a sua deposição e a reestruturação do regime político no país.
Em 2024, os EUA, ainda sob o governo Biden, os EUA não reconheceram a vitória de Maduro à presidência da Venezuela, rejeitando o pleito por considera-lo não livre. Na ocasião, não somente a oposição de direita denunciou restrições eleitorais, mas também as oposições de esquerda, que tiveram impedidos registros de suas candidaturas. Em 2019, na primeira presidência de Trump, a embaixada estadunidense em Caracas foi fechada, após acusações de espionagem.
Esse novo cenário latino-americano exige um posicionamento enérgico e conjunto de governantes da região. No entanto, o que predomina é o silêncio – covarde e conveniente – ou, quando muito, retóricas vazias contrárias à militarização do Caribe. A submissão das burguesias locais, curvadas às pressões e sanções tarifárias dos EUA, explica as hesitações e vacilações dos governos regionais, bem como o posicionamento ultradireitista favorável à política de combate ao narcotráfico sob a coordenação estadunidense.
Diversos governos da região apresentam-se alinhados à atual geopolítica norte-americana: México, Guatemala, Honduras, El Salvador, Guiana, Trinidad e Tobago, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Argentina e Paraguai.
As declarações contrárias, quando existem, revelam apenas o oportunismo tático para negociações com os EUA. É o caso da retórica vazia do governo brasileiro, que demonstra postura vacilante. Suas contestações são formais e pontuais, limitando-se à proposta de mediar o conflito entre “as duas partes” – EUA e Venezuela!! Trata-se de atitude oportunista, voltada a angariar popularidade (eleitoral) para as próximas eleições presidenciais no Brasil. Além disso, encobre as negociações sobre o tarifaço atualmente em curso com os EUA, conduzida sem qualquer relação com os interesses da classe trabalhadora e do povo brasileiro. O posicionamento do Governo Lula apenas faz contestações formais e pontuais, desconsiderando a gravidade das intervenções estadunidenses no cenário latino-americano.
Neste artigo, examino alguns aspectos desse quadro: o cenário militar na região; a questão do narcotráfico e a justificativa de Trump; as posições em disputa na cúpula trumpista sobre a Venezuela; o regime político venezuelano; o alinhamento dos governos latino-americanos ao trumpismo; os interesses estratégicos estadunidenses na região.
O crescente reforço militar no Mar do Caribe
A crescente presença militar no Mar do Caribe, com ações letais nas costas da Venezuela e nas águas da Colômbia, não deixa dúvidas quanto aos objetivos do Governo Trump: de forma permanente, retomar as ações navais no entorno latino-americano e ampliar seus interesses econômicos e geopolíticos.
Desde agosto, cerca de 10 mil soldados estadunidenses foram deslocados para a região, distribuídos entre operações navais e bases em terra. Metade encontra-se em oito navios de guerra da Marinha, equipados com caças F-35, incluindo mais de dois mil fuzileiros navais. A outra metade em bases como Porto Rico, onde operam caças, drones MQ-9 Reaper da Força Aérea, aeronaves de vigilância e equipes de apoio[2]. São dezenas de aeronaves e navios militares, além de um submarino de propulsão nuclear.
A essa frota militar se somar-se-á o maior navio de guerra do mundo, o porta-aviões USS Gerald R. Ford, acompanhado por mais 5 mil militares e 75 navios de ataque, vigilância e apoio, e caças como os F/A-18. Esse aparato dirige-se às águas da região, vindo do Mediterrâneo, da costa da Croácia[3], com chegada prevista para novembro. As ordens foram emitidas em 24 de outubro pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth[4][5].
Imagens por satélite e registros públicos de rastreamento de voos confirmam o aumento das operações na região. Também é possível visualizar, em sites abertos ao público, voos militares que confirmam a presença dos EUA no entorno venezuelano e colombiano.
Por sua vez, jornal norte-americano revelou que Trump autorizou ações secretas da CIA contra o governo venezuelano[6]; portanto, ações terrestres em solo do país.
Ameaças consideradas como “demonstração de força” são frequentes desde meados de outubro: sobrevoos prolongados de bombardeiros B-1[7] pela costa venezuelana, operações de helicópteros em mar entre Venezuela e Trinidad e Tobago, e missões de vigilância da Marinha dos EUA a cerca de 20 km da costa. Em 2 de setembro começaram os ataques letais (assassinatos) em águas do Caribe e, a partir de outubro, no Pacífico, na costa da Colômbia, contra pequenas embarcações acusadas, sem provas, de tráfico de drogas e de ligação com ao Tren de Arágua e outras organizações criminosas.
Unidades de Operações Especiais dos EUA assassinaram, entre setembro e final de outubro desse ano, 57 tripulantes de pequenas embarcações[8]. Em suas redes sociais, Trump e assessores[9] afirmaram que se tratava de narcotraficantes, apresentando como “prova” vídeos aéreos mostravam barcos em chamas após os ataques. Nenhuma evidência confirmou as alegações de que se tratava de narcotraficantes. Esses episódios configuram execuções sumárias, violando frontalmente o direito internacional.
O que antes eram operações de interdição conduzidas pela Guarda Costeira estadunidense transformou-se em ações de guerra contra “forças inimigas”. O secretário de Segurança – rebatizado por Trump como “Departamento de Guerra” – declarou, após um dos ataques em águas colombianas, que “as quatro embarcações eram conhecidas pelo nosso aparato de inteligência, transitando por rotas conhecidas de narcóticos e transportando narcóticos”. E acrescentou: “Esses narcoterroristas mataram mais americanos do que a Al-Qaeda e serão tratados da mesma forma”[10]. Foram mortas 14 pessoas, talvez pescadores, sem nenhuma apuração e provas de envolvimento com o narcotráfico. Apenas suposições, sem retenção e averiguação das embarcações. Ainda que fosse provado envolvimento, o que não foi, é inadmissível execuções que se encontram completamente à margem do direito internacional.
Em outubro, assessores do governo afirmaram que os EUA, estavam agora em um “conflito armado não internacional” contra cartéis de drogas. Trump caracterizou que seu reforço militar na região tinha como alvo a Venezuela e seu líder, a quem os EUA acusam de liderar uma “organização terrorista não estatal” (Tren de Arágua) que estaria inundando os Estados Unidos com drogas e assassinatos.
O clima regional é de aberta militarização, justificada pelo combate aos “grupos terroristas internacionais”[11]. Trump chegou a sugerir ataques terrestres em solo venezuelano, alegando que o contrabando de drogas teria migrado para rotas terrestres. Acrescentou que seu governo “provavelmente retornaria ao Congresso e explicaria exatamente o que estamos fazendo”, antes de lançar tais ataques, mas destacou a necessidade de obter autorização parlamentar. “Vamos atacá-los com muita força quando vierem por terra”, afirmou, referindo-se aos grupos que acusa de tráfico de drogas. “Eles ainda não passaram por isso, mas agora estamos totalmente preparados para isso”[12]. Em declarações públicas, mencionou a inclusão de operações letais da CIA com o objetivo de deposição do presidente venezuelano[13].
O discurso trumpista sobre o narcotráfico e a relação com o terrorismo
Em janeiro, logo ao reassumir o cargo, Trump assinou uma Ordem Executiva[14] que classificou os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras, equiparando narcotráfico e terrorismo. Essa redefinição ampliou as prerrogativas do Estado para ações militares, além das sanções econômicas já em vigor. A “ ameaça à segurança nacional” iria além do “crime organizado tradicional”, segundo o texto, pois pois envolveria “atores extra hemisféricos” que seriam “desde organizações terroristas estrangeiras designadas até governos estrangeiros antagônicos” engajados em “insurgência e guerra assimétrica”. Cita o grupo criminoso venezuelano Tren de Arágua (TdA) e o salvadorenho Mara Salvatrucha (MS-13). Designou o procurador-geral e o Secretário de Segurança interna para “iniciar preparativos operacionais” conforme a antiga Lei de Inimigos Estrangeiros, de 1798, raramente utilizada na história estadunidense.
Ocorreu, assim, um “salto de qualidade” na caraterização jurídica dos cartéis de drogas pelos EUA. Até o ano passado, esses grupos eram tratados como organização criminosa transnacional, mas agora passaram a ser definidos como “atores extra hemisféricos”, ou seja, não se localizariam somente na América Latina, e haveria uma rede, articulação, que envolveria grupos terroristas internacionais e “governos antagônicos”, que ameaçavam a segurança estadunidense.
Trump afirmou em março que o Tren de Arágua (TdA) cometia crimes nos EUA sob a direção do presidente venezuelano, que teria libertado seus membros das prisões e os enviado para os EUA. Com tal “prova”, Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros[15] para deportar mais de 200 venezuelanos presos nos EUA às prisões de Nayib Bukele, em El Salvador, um de seus mais fiéis aliados.
No comunicado oficial em março, o TdA foi classificado como “organização terrorista estrangeira com milhares de membros” e operaria com outra organização narcoterrorista, supostamente patrocinada pelo regime de Maduro. Segundo Trump, “essas organizações criminosas transnacionais” controlariam cada vez mais o governo e o território venezuelano, transformando a Venezuela em “um estado criminoso híbrido” que estaria “perpetrando uma invasão e incursão predatória nos Estados Unidos”. Esse é o arcabouço ideológico que o justifica, diante de seu público interno, para a crescente militarização do Mar do Caribe e as agressões mortais em curso.
Em julho, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro classificou o Cartel de los Soles como “organização terrorista global especialmente designada” com sede na Venezuela. O OFAC alegou que “Nicolás Maduro Moros e outros indivíduos venezuelanos de alto escalão” no regime político “corromperam as instituições governamentais”, incluindo “setores das forças armadas, do serviço de inteligência, do legislativo e do judiciário”, para o tráfico de narcóticos para os Estados UnidosAcrescentou ainda que o governo venezuelano “forneceria apoio material a organizações terroristas estrangeiras que ameaçam a paz e a segurança dos EUA”[16], nomeadamente o Tren de Aragua e o mexicano Cartel de Sinaloa.
No início de agosto, a procuradora-geral dos EUA apresentou a nova recompensa (duplicada) de US$ 50 milhões para informações que levassem à captura de Maduro, classificado como “um dos maiores traficantes do mundo”[17]. O poster do Departamento do Estado dizia: “por conspiração de narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e conspiração para usar e portar metralhadoras e dispositivos destrutivos em apoio a um delito de drogas”[18]. Segundo o governo, os EUA teriam apreendido 30 toneladas de cocaína do Cartel de los Soles, sendo sete toneladas de propriedade de Maduro. Isso seria uma “ameaça à nossa [EUA] segurança nacional”: ele [Maduro] não escaparia, disse a procuradora-geral. Ainda afirmava que o venezuelano estaria associado ao Trem de Aragua e ao Cartel de Sinaloa, considerados “organizações terroristas estrangeiras”, desde janeiro deste ano. O Departamento do Tesouro dos EUA já tinha colocado o Cartel de los Soles na lista de “terroristas globais especialmente designados”[19].
Os EUA são o maior mercado de cocaína mundial, seguidos pela Europa. São o principal destino do tráfico global. No entanto, essa droga, proporcionalmente (embora continue crescendo), representa parcela menor frente à explosão do consumo de drogas sintéticas, como anfetaminas e opioides. O fentanil – produzido majoritariamente no México com insumos químicos vindos de países asiáticos, incluindo a China – é responsável pela maior parte das mortes por overdose nos EUA. De acordo com a Agência Antidrogas dos EUA (DEA), o Departamento de Justiça e o Serviço de Pesquisa do Congresso[20], a Venezuela praticamente não desempenha papel relevante na produção ou contrabando de fentanil ou cocaína.
A bacia do Caribe representa uma porcentagem pequena na rota do tráfico para os EUA. A magnitude da ofensiva militar naval é desproporcional ao volume de drogas transitando na região. Nesse sentido, os ataques às embarcações evidenciam que o objetivo real não é o combate aos cartéis de narcotráfico e às drogas que entram nos EUA, mas sim justificar a militarização. De fato, essa história não confere com a realidade.
Trump, em seus delírios, enfatizou que, a cada barco destruído na região, salvaria 25 mil vidas. Nos EUA, é estimado que cerca de 100.000 pessoas morrem de overdose a cada ano, mas a maioria dessas mortes ocorre por causa do fentanil. O aumento nas overdoses foi impulsionado pelo fentanil. De acordo com a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, 94% da droga apreendida nos EUA é interceptada na fronteira ao sul. De acordo com a Agência de Repressão às Drogas (DEA), o Departamento de Justiça e o Serviço de Pesquisa do Congresso (CPA), a rota principal, nem de longe, é a Bacia do Caribe. A maior produção global de cocaína – que seu consumo é menor nos EUA em relação ao fentanil – sai da Colômbia, Peru e Bolívia e vai para a América do Norte e Europa. Passa pelos portos peruano, equatoriano e colombiano e, mais recentemente, estão passando pelo Equador e Costa Rica.
A Colômbia, de acordo com relatório de 2024, é o principal ponto de origem da cocaína para os EUA, representando cerca de 64% das drogas apreendidas. Não são somente por rotas marítimas, nem principalmente pelo Caribe. Seguem rotas terrestres e aéreas para os Estados Unidos e Canadá. A principal rota marítima acontece pelo Oceano Pacífico, com cerca de 74% do total do tráfico, uma vez que o Pacífico é uma vastidão que dificulta a vigilância, ao contrário do Mar do Caribe, onde ocorre maior vigilância estadunidense. Além da rota do Pacífico, a cocaína também segue por duas rotas que atravessam o Caribe. A mais utilizada é a rota do Caribe Ocidental (Colômbia, Equador, Peru e atravessa o Panamá e Jamaica). A outra rota segue pelo corredor do Caribe, que vai da Colômbia até a República Dominicana e o Haiti e, de lá, para a Flórida ou o Canadá.
Da Venezuela, sai um tráfico muito menor daquele que acontece pela América Central e Pacífico. Enquanto a exportação da Colômbia representava estimados 279,7 toneladas e o Equador cerca de 252 toneladas, a Bolívia próximos a 45 toneladas, a Venezuela chegava em estimados 35,1 toneladas. De acordo com a UNODOC (2025)[21], o Cartel de Sólis, que para Trump teria como seu líder Nicolás Maduro, não é um cartel de drogas, mas sim uma rede de corrupção entronizada nas Forças Armadas venezuelanas que, entre outras coisas, facilita o tráfico de drogas.
A associação entre narcotráfico e terrorismo já vem do período Ronald Reagan
A associação entre narcotráfico e terrorismo não é uma criação recente. Ela remonta à década de 1980, quando os Estados Unidos, sob a presidência de Ronald Reagan, instituíram a chamada guerra às drogas como um dos eixos da sua política externa na América Latina. Desde então, essa estratégia funcionou como doutrina e instrumento geopolítico de controle e intervenção, travestida de moralismo antidrogas e de combate ao crime transnacional.
Ao longo dos anos 1980-2000, os EUA declararam guerra às drogas, mas o consumo interno nunca de fato diminuiu; pelo contrário, cresceu. Isso revela não apenas uma sociedade capitalista cada vez mais adoecida mentalmente – um claro problema de saúde pública-, mas também as articulações das redes de narcotráficos com agentes federais e a própria CIA. O fluxo do tráfico de armas alimenta as várias organizações criminosas continuou no eixo Norte-Sul, ou seja, dos EUA para a América Latina. Em décadas anteriores, a chamada “guerra às drogas” serviu essencialmente à política de militarização regional.
Desde os anos 1980 consolidou-se uma superestrutura jurídica que operacionalizou e legitimou as inúmeras ações de combate às drogas na América Latina, ao definir a região como origem da “inundação” das drogas nos EUA. Essa superestrutura moldou em grande parte a geopolítica estadunidense, articulando narcotráfico, crime organizado, terrorismo e insurgência revolucionária.
O relatório Uma nova política interamericana para os Anos 1980, conhecido como Santa Fé I e II, apresenta a questão das drogas como problema estratégico de segurança para os EUA que legitimaria a cooperação militar hemisférica. A Lei de Abuso de Drogas (1988) institucionalizou a coordenação e o orçamento antidrogas não somente no plano nacional americano, mas latino-americano. No final dos anos 1980 e no transcorrer de 1990, surgiu a Lei de autorização de defesa nacional (1989), a partir da qual o Departamento de Defesa (DoD) passou a ser a agência que monitora o tráfico de drogas para o país, de onde se configurou a Força-Tarefa Conjunta Interagências e a chamada Força-Tarefa Conjunta Interagências Sul, que é coordenada pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM).
A partir desse arcabouço ideológico e operacional desenvolveram-se os grandes “pacotes” regionais (2000-2016). O Plano Colômbia está diretamente associado ao processo contrarrevolucionário contra as FARCs e ELN, associado ao combate às drogas, com assistências bilionárias dos EUA ao governo colombiano da época. Algo semelhante se desenvolveu com a Iniciativa Mérida, no México, que teve ênfase militar/equipamentos e agregou aspectos de inteligência, legislação e reforma institucional mexicana.
Nem Barack Obama (2007-2016) nem Joe Biden (2020-2024) alteraram substancialmente essa arquitetura ideológico-jurídica e operacional. Biden, por exemplo, substituiu a Iniciativa Mérida pelo Quadro Bicentenário EUA-México para Segurança, Saúde Pública e Comunidades Seguras, que formalizou a corresponsabilidade mexicana pela redução da demanda.
O primeiro governo Trump (2017-2021) radicalizou essa tradição. Intensificou a pressão política sobre o México e a China, que se tornara a precursora do fentanil. Trump ameaçava usar intensivamente o OFAC/Kingpin Act e ameaçava classificar os cartéis como Organização Terrorista Estrangeira (FTO), o que veio a se concretizar no início do seu segundo mandato. Essa radicalização coincidiu com a mudança estrutural no mercado de drogas e a consolidação das drogas sintéticas (fentanil/metanfetamina), que deslocou as cadeias de produção que antes estavam ligadas às lavouras de coca para maior encadeamento entre cadeias de produção química, portos e finanças. Os tempos de produção e circulação de drogas como mercadoria se intensificaram.
Com o Trump 2.0 (2025) e sua Ordem Executiva nº 1415, finalmente conseguiu designar os cartéis e afins como Forças Terroristas Estrangeiras (FTO) e Terrorista Global Especialmente Designada (SDG). FTO significa a criminalização do apoio material ao tráfico e endurece migração e asilo. Dessa forma, está combinando a legislação de poderes econômicos no âmbito internacional, com sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) e o estatuto antiterrorismo.
Essa combinação entre a legislação antiterrorismo e as sanções financeiras criou um instrumento de alcance superior: uma arma jurídico-financeira de projeção extraterritorial. A FTO é uma arma jurídico-financeira de enorme e perigoso alcance, pois, além de atingir os cartéis de drogas e o crime organizado, ele se estende sobre as soberanias nacionais, pois projeta o poder estadunidense por meio penal-financeiro e pressiona os países a um alinhamento financeiro e cooperativo. Trata-se, em essência, de uma guerra imperialista com aparência de legalidade internacional, onde o combate ao narcotráfico converte-se em mecanismo de disciplinamento financeiro e político das soberanias latino-americanas.
O alinhamento de governos latino-americanos ao Governo Trump
As pressões tarifárias e o discurso securitário de Trump operam de forma sincronizada, combinando sanções econômicas, diplomacia coercitiva e retórica moralizante que ecoa entre os governos e as burguesias latino-americanas dependentes. O Governo Trump articula assistência, operações conjuntas policial-militar e segurança (minitoramento) financeiro, ao mesmo tempo que preserva o fluxo comercial de armas norte-sul. Da antiga “guerra às drogas” (erradicação), passou a adotar uma pressão regional que combina caráter policial-militar, cooperação judicial, sanções financeiras e diplomacia de dados.
Na prática, os programas como Plano Colômbia (anos 2000), Iniciativa Mérida (2008) e seus desdobramentos recentes (Bicentennial Framework, 2021) institucionalizaram a segurança como pilar da relação EUA-México/América Central e do Sul.
A Colômbia segue atrelada à política antidrogas e à tutela estadunidense. O Congresso e o departamento de Estado priorizam recursos e legitimam a ingerência estadunidense sob o pretexto do combate ao crime.
Os EUA apoiam-se também nas oposições pró-estadunidenses dos vários países da região e, especialmente, aproveitam-se da baixa popularidade, corrupção e fraquezas de vários desses governos, como é o caso da Venezuela e da Colômbia. Ao mesmo tempo, por meio de pressões, ameaças tarifárias e afinidades político-ideológicas, configuram um entorno de governos pró-Trump ou ao menos a ele submissos. Vejamos alguns casos.
Os EUA continuam apoiando o presidente Nayib Bukele de El Salvador, cuja repressão massiva (e indistinta) a gangues é apresentada como modelo. No final de julho, os EUA rejeitou comparações entre os processos legislativos do país e outros países da região. Em agosto, o secretário de Estado, Marco Rubio, defendeu o fim do limite de mandatos presidenciais no país, como em julho fora aprovado na Assembleia Nacional. Ainda em agosto, apoiou n a avaliação anual de direitos humanos, considerando que não haveria no país evidências de violações. Enquanto isso, Bukele continua uma dura repressão contra membros de gangues e grupos de direitos humanos contrários às draconianas leis anti-gangues.
No início de setembro, Marco Rubio foi ao México conversar com a presidente Sheinbaum e ambos anunciaram um grupo para avançar em ações conjuntas contra grupos criminosos. Nas declarações, o secretário de Estado elogiou a presidente na luta contra as organizações criminosas, mas nada disseram sobre a intenção dos EUA realizar intervenção militar unilateral em território mexicano. No início de agosto, Trump autorizou preparativos para uso de forças militares contra os cartéis, em solo mexicano, e instruiu o Pentágono a “começar a usar força militar contra certos cartéis de drogas da América Latina”[22]. Sheinbaum, formalmente, colocou-se contra tal plano, embora já apresentasse a disposição de “cooperar” com os EUA. Ao mesmo tempo, Trump elogiou o destacamento militar concentrado na fronteira México/EUA, as apreensões de drogas e a transferência de “sujeitos de alto valor” para os EUA. Pediu para que o México prosseguisse em seus “esforços adicionais e agressivos”.
EUA e México, ainda em setembro, iniciaram ações conjuntas contra o tráfico transfronteiriço de armas. No mesmo período, a presidente mexicana sinalizou alinhamento com as prioridades comerciais estadunidenses ao impor tarifa de 50% sobre os produtos chineses, inclusive veículos. No contraponto, o México não sofreu até agora nenhum tarifaço como era prometido inicialmente.
A versão mais recente de alinhamento aos EUA foi a do presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, que está projetando uma reforma do sistema prisional no país, após 20 integrantes da gangue Barrio 18 escaparem de um presídio de segurança máxima, Fraijanes II. A gangue é caracterizada como “organização terrorista estrangeira” pelos EUA. Disse ele: “Teremos o apoio do FBI e de outras agências de segurança dos EUA, cuja experiência e capacidade técnica fortalecerão nossos sistemas de segurança e tornarão nossa luta contra o crime organizado mais eficaz”, “não estaremos sozinhos nessa luta”[23].
O alinhamento de Arévalo com Trump ocorre desde fevereiro, quando Marco Rubio foi ao país. Rubio reiterou a prioridade estadunidense para a região em torno da segurança, combate ao crime organizado e ao narcotráfico[24]. O guatemalteco apoiou a deportação de imigrantes dos EUA para o país, tanto guatemaltecos quanto de outras nacionalidades, reproduzindo o que ele já fazia no Governo Biden. Nessa ocasião, Arévalo anunciava a formação de uma “força de segurança de fronteira” que visaria patrulhar as fronteiras da Guatemala, Honduras e El Salvador contra crimes transnacionais. Até o momento, o país não sofreu nenhum tarifaço, somente manteve os 10% básicos em suas exportações para os EUA.
Em linhas gerais, as intervenções militares no Mar do Caribe, estendendo-se para o Pacífico, têm sido miseravelmente silenciosas ou quase isso pelos governos latino-americanos. A Guiana e Trinidad e Tobago apresentaram apoio aos EUA, ao que o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino, disse que ocorrerão retaliações contra esses países caso sejam atacados pelos EUA. Lula, por sua vez, realizou uma crítica formal às ações militares americanas, no final de setembro. Classificou os ataques a embarcações como “execuções extrajudiciais” e logo se ofereceu como mediador político da situação, uma vez que, para ele, “o diálogo com a Venezuela deve permanecer aberto”.
O Brasil na discussão sobre narcotráfico e terrorismo
A ultradireita brasileira acompanha os passos de Trump. A proposta inicial é ampliar a lei Antiterrorismo (lei nº13.260/2016) para incluir as atividades de organização criminosas. A lei antiterrorismo foi formulada e agilizada no Governo Dilma pelo ex- ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e apoiada por muitos deputados petistas, nos desdobramentos dos movimentos de junho de 2013, no período dos eventos esportivos internacionais.
O atual projeto de lei nº 1.283/2025 propõe estender o conceito de terrorismo para incluir atividades de organizações criminosas como facções, milícias e narcotráfico. A sua ementa é bem clara: “Altera a Lei nº 13.260, de 16 de março de 2016 (Lei Antiterrorismo), para ampliar as motivações do crime de terrorismo, especificar infraestruturas críticas e serviços de utilidade púbica, estender a aplicação da lei a organizações criminosas e a milícias privadas que realizem atos de terrorismo, além de estabelecer majorante para ato de terror cometido por meio de recurso cibernético”. (Danilo Fortes – União/CE)[25]. O artigo 2º da Lei seria alterado, para inserir como terrorismo as práticas que impusessem o “domínio ou controle de área territorial, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.
O projeto de lei, apresentado em março no Congresso, ganhou ares de urgência em maio no Plenário da Câmara Federal, o que permitiu encurtar a tramitação, não passando por comissões. Coincidência ou não, em meio a esse processo lesgislativo, uma série de reuniões bilaterais de delegação dos EUA com o governo brasileiro havia ocorrido em torno do tema das organizações criminosas transnacionais, onde foram discutidos programas para enfrentar o terrorismo e o tráfico de drogas[26], de maneira conjunta.
Quem é o relator do projeto é o ultradireitista, atual secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, que se afastou da Secretaria e reassumiu seu cargo no Congresso Nacional, se tornando o relator do projeto de lei.
O empenho ultradireitista ganhou mais gás a partir da operação militar no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV), definida pelo governador Cláudio de Castro e áreas de segurança. A operação fez 121 pessoas mortas nos morros (complexos) da Penha e do Alemão, em execução sumária como tudo indica, no dia 28 de outubro. A maior chacina ocorrida na histórica carioca. Relatos e vídeos mostram mutilações e decapitações. A megaoperação não teve seus objetivos alcançados – prender 100 integrantes, entre os quais lideranças do Comando Vermelho. No entanto, pelo menos momentaneamente, teve grande impacto positivo sobre a população carioca, na cidade e nas favelas, e no país inteiro, de acordo com pesquisa Atlas. Nos dias seguintes, governadores de direita – Goiás (Caiado), Minas Gerais (Zema), Paraná (Ratinho), São Paulo (Tarcisio) por vídeo- reuniram-se em apoio a Cláudio Castro e à política de militarização do combate ao crime organizado.
Uma carta do governo americano enviada ao secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Cesar dos Santos, no dia 04 de novembro, “lamentou” a perda dos quatro policiais que morreram na operação: “nosso respeito e admiração pelo trabalho incansável das forças de segurança do Estado e colocamo-nos à disposição para qualquer apoio que se faça necessário”. Foi o que disse James Sparks, responsável pela Divisão de Combate às Drogas, do Departamento de Justiça dos EUA. Nenhuma palavra sobre a brutal morte de tantas pessoas. A carta é mais um sinal, ao meu ver, de como o Governo Trump está tentando trazer para a pauta sobre o tarifaço com o governo brasileiro a discussão da caracterização de terrorismo aos grupos criminosos. Evidentemente, isso jogou mais esperanças na ultradireita.
As posições sobre a Venezuela na cúpula trumpista
Nesse momento é difícil avaliar quais os desdobramentos no cenário venezuelano especialmente. Mas se evidencia uma lógica abertamente hostil na geopolítica estadunidense em relação aos países latino-americanos. O que está na mesa são as pressões estadunidenses em negociações bilaterais em torno de interesses empresariais somados à pressão política, seja militar ou sanções econômicas (ou ambas).
Na cúpula trumpista coexistem duas correntes estratégicas em relação à Venezuela. Aquela claramente intervencionista, liderada por Marco Rubio e Pete Hegseth, defende abertamente a deposição de Maduro por meio de ação militar direta ou bloqueio total. A segunda, “negociadora”, mediada por Richard Grenell e empresários do setor energético, propõe uma transição pactuada, ampliando ao máximo os contratos de exploração e evitando o fortalecimento dos interesses chineses e russos.
Trump oscila entre ambas as posições, conforme as pressões do lobby petrolífero, da burguesia cubano-venezuelana-americana e dos setores militares. Essa ambiguidade reproduz o padrão histórico da política estadunidense para a região: agressividade militar e pragmatismo econômico.
Nos últimos dois meses, ocorreu a militarização das águas caribenhas, ataques às pequenas embarcações venezuelanas, baseadas nas repetidas “denúncias” sobre a associação entre Maduro e os cartéis de drogas. Mas no período também foram tecidas negociações secretas entre assessores de Maduro e o funcionário estadunidense designado, Richard Grenell. Nessas negociações, o presidente venezuelano teria proposto acordos envolvendo projetos de petróleo e ouro existentes (e futuros), contratos preferenciais para empresas estadunidenses, além de propor reverter o fluxo de exportação de petróleo da China para os EUA e cortar os contratos de energia e mineração de seu país com empresas chinesas, iranianas e russas[27]. Essas informações foram reveladas por jornal estadunidense e não foram contestadas nem pelo Governo Trump nem por Nicolás Maduro. Ou seja, segundo as informações vazadas, o objetivo era obter o máximo de concessões nos recursos naturais venezuelanos, embora mantendo o regime político com Maduro em sua direção, descartando os interesses chineses e outros.
Ainda assim, Trump rompeu as tratativas no início de outubro, uma vez que Maduro não teria aceito uma de suas exigências: renunciar ao poder. O que sugere um cenário potencial de escalada contra o seu governo.
A estratégia conduzida por Richard Grenell considerava a possibilidade de aprofundamento das concessões de riquezas estratégicas, embora mantendo o regime político venezuelano e seu chefe, em um processo de transição política mais lento e pactuado. No entanto, o setor trumpista que Marco Rubio expressa passou por cima das negociações secretas e convenceu Trump a endurecer. Então, o que passou a prevalecer, pelo menos por ora, foi a estratégia conduzida por Rubio e o conselheiro de segurança, Stephen Miller: depor Maduro e seus aliados, acabar com o atual regime político. Em apoio ao secretário, o diretor do Escritório de Serviços Estratégicos (CIA), John Ratcliffe, que assumiu o cargo em 15 de janeiro, prometendo uma Instituição mais agressiva. Apenas como ilustração, vale lembrar que na audiência no Senado americano, ele afirmou que tornaria a CIA mais disposta a conduzir ações secretas quando ordenadas por Trump. Notem a afirmação do “cão de guarda”: “indo a lugares que ninguém mais pode ir e fazendo coisas que ninguém mais pode fazer”[28]. Ainda para Ratcliffe, o recruta ideal da CIA seria um “Ph.D. que pudesse vencer uma briga de bar”. Outra pérola: “Esse sentimento é a essência do que a CIA de hoje deve recapturar”. Ou seja, um retorno ao que a Instituição foi e fez, dentro do Make America Great Again (Fazer a América Grande Novamente).
Em meados de outubro, Trump teria autorizado à CIA intensificar ações em terra no território venezuelano: “certamente estamos olhando para a terra agora, porque temos o mar muito bem controlado”, disse. Seria uma permissão para conduzir operações letais no país e uma série de operações no Caribe[29]. Além dessa ameaça, em 21 de outubro, Trump disse que notificaria o Congresso sobre suas intenções de bombardear alvos venezuelanos. Tais ações poderiam incluir ataques a alvos terrestres supostamente ligados ao tráfico de drogas, mas também instalações que estivessem ligadas ao Cartel de los Soles.
Seriam simples ameaças discursivas ou narrativas que se articulam às práticas militares? De qualquer modo, o que estamos acompanhando é o crescente ataque e assassinatos, como também sobrevoos, nas águas do Caribe e Pacífico, inclusive em território venezuelano e colombiano. Trump sugere que irá atacar alvos terrestres. Diz que os ataques às pequenas embarcações desviaram o contrabando de drogas para rotas terrestres. Acrescentou que seu governo “provavelmente retornaria ao Congresso e explicaria exatamente o que estamos fazendo”, antes de lançar esses ataques, mas ressalta que precisa da permissão do Congresso para agir. “Vamos atacá-los com muita força quando vierem por terra”, disse Trump sobre aqueles que seu governo acusa de tráfico de drogas. “Eles ainda não passaram por isso, mas agora estamos totalmente preparados para isso”[30].
A estratégia de deposição de Maduro e a derrubada do regime político venezuelano, evidentemente, estão associadas ao pleno acesso aos recursos naturais do país. É a principal estratégia levada à frente nesse momento. Não é simples pressão para obtenção de mais concessões do regime venezuelano. Um governo venezuelano pró-trumpista seria a condição de estabilidade política, com a garantia militar estadunidense na região.
Outra posição existente parece menos realista, ainda que esteja sendo tecida. A negociação com o governo venezuelano poderia envolver a própria manutenção do atual regime político, mas sem Maduro e parte da cúpula militar (Diosdado e outros), mas incorporando setores oposicionistas pró-trumpistas, como Marina Corina Machado e seguindo para novas eleições presidenciais. Ou seja, seria um governo provisório de transição. Proposta que, evidentemente, nem Maduro nem parte da cúpula venezuelana aceitariam, uma vez que lhes tirariam completamente as garantias do que lhes ocorreria no futuro político imediato.
O regime político venezuelano se mobiliza… e negocia
Existe uma corrente de interpretações que questiona qualquer possibilidade de resistência venezuelana em caso de intervenção militar estadunidense. Basicamente sustenta essa posição a partir da nítida inferioridade militar venezuelana. Em parte isso de fato é real, no que se refere ao aparato militar. No entanto, subestima o poder de mobilização que Maduro ainda hoje tem na Venezuela.
Maduro e seu regime político são uma cristalização bonapartista, tendência consolidada no transcorrer do governo de Hugo Chavez e que continuou a se aprofundar com Maduro e sua cúpula militar[31].
São rejeitados pela maioria do povo venezuelano, inclusive eleitoralmente, como ocorreu nos resultados presidenciais de 2024. A “estrondosa” vitória nas municipais de julho passado apenas mascara a perda de base social e aprofunda as denúncias de fraude eleitoral. Na atualidade o regime venezuelano se mantém baseado em uma forte e coesa base militar nas Forças Bolivarianas, formada por generais e principais comandantes militares, e que ainda envolve cerca de 30% da população que, por diversos mecanismo estatais, mantém-se cooptada ao regime político.
A maioria do povo venezuelano percebe/sente no seu cotidiano não somente a miséria social, mas o grau de corrupção que perpassa pelos inúmeros poros do Estado. Perseguem os diversos setores sindicais e de esquerda opositores dos descalabros econômicos e políticos no país. Restringem as liberdades políticas e as formas de organização política e sindical básicas.
No entanto, é difícil prever o que significaria ataques militares estadunidenses em terra. O sentimento anti-imperialista que poderia aflorar ou reviver como ideologia de resistência nacional, especialmente contra uma potência imperialista que historicamente sempre expôs suas patas opressoras e exploradoras sobre os povos latino-americanos. Por outro lado, o regime venezuelano ainda tem poder de mobilização, seja no aparato civil cooptado pelo regime, ou mesmo mobilizado de uma maneira coercitiva, não esquecendo ainda o aparato militar que não é desprezível.
Não seria um “passeio no parque”, certamente, uma intervenção estadunidense por terra, especialmente em Caracas, nas áreas centrais da cidade e especialmente nas inúmeras vilas e suas ruelas nos morros que contornam a cidade. O que levaria inicialmente a duas possibilidades logísticas mais plausíveis, em ataques iniciais: a) intervenções contínuas de mísseis e drones, com alvos pré-estabelecidos: Maduro e setores da cúpula militar e civil; b) divisão na cúpula militar e assassinato/sequestro de Maduro, com apoio na contraespionagem estadunidense. Essas possibilidades não se excluem. De qualquer maneira, para a estabilização de um novo governo de caráter pró-trumpista, tipo Maria Corina Machado, caso não tenha o apoio de setores significativos das forças armadas, exigiria a presença militar estadunidense em terra. E aí o “caldo pode entornar”. Como se desdobram as resistências populares em tal cenário é muito difícil de previsão, uma vez que revoltas e processos revolucionários de caráter anti-imperialista e antirregime bonapartista e pró-imperialista podem apontar para soluções radicais.
De qualquer maneira, em agosto e setembro foram mostradas imagens de operações de “ofensiva especial” em todo o país que envolveriam unidades policiais, militares e civis para reforçar a segurança interna. Maduro em agosto afirmava que mobilizaria mais de quatro milhões de milicianos em todo o país, o que é pouco provável em termos infraestruturais (material, logístico, equipamentos, operacionalidade). Também intensificou os controles de fronteiras e o envio de drones e navios para patrulhar sua costa. Em setembro, apresentou imagens de exercícios militares na ilha de Orchilla.
A situação da Colômbia e Petro
A agressão contra a Venezuela e a Colômbia e as pressões políticas sobre governos latino-americanos indica a maneira como o imperialismo da Era Trump tratará seus “parceiros” e inimigos, de acordo com os seus interesses empresariais e geopolíticos. O que começou com uma violenta e assassina ação militar em águas venezuelanas, estendeu-se para as águas da Colômbia, que é uma área muitíssimo maior de narcotráfico para os EUA.
No dia 08 de outubro, Gustavo Petro, presidente colombiano, denunciou que cidadãos colombianos também foram mortos em ataques marítimos estadunidenses. Petro foi taxativo: “Autoridades do governo dos EUA cometeram um assassinato e violaram nossa soberania em águas territoriais”. E mais: “Uma nova zona de guerra se abriu: o Caribe”. “Indícios mostram que o último barco bombardeado era colombiano, com cidadãos colombianos dentro”. Imediatamente, os EUA exigiram retratação de Petro, uma vez que poderia prejudicar os laços bilaterais entre os dois países[32].
Então, Trump acusou Petro de não conter a produção de drogas ilegais e o chamou de “traficante ilegal”, dizendo que iria suspender os pagamentos com ajuda ao país e aumentaria as tarifas comerciais. Em setembro, os EUA revogaram o visto de entrada do colombiano para a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Desde janeiro, Petro entrara em conflito diplomático com Trump, ao recusar que aviões militares dos EUA deportassem colombianos para o país. O colombiano recuou em meio às ameaças de maiores tarifas e sanções ao país.
O conflito diplomático continua se intensificando após os torpedeamentos de duas embarcações possivelmente em águas colombianas. Petro continuou denunciando o caráter assassino dos ataques, como os ocorridos no dia 03 e 15 de setembro último[33]. Em mensagem crítica a Trump, denunciou outro ataque em 22 de outubro como “um ato assassino”.
Petro considera que houve sucessos relativos da polícia colombiana no combate ao narcotráfico, o que levou os grupos a transferirem as rotas para o Equador, expandindo a violência em seu território e usando os seus portos.
O Oceano Pacífico, do sul da Colômbia ao Panamá, México e EUA, não é acessível por lanchas, mas sim por grandes embarcações, onde as drogas são transportadas por contêineres comerciais ou no casco submerso dos navios. A estratégia central, para Petro, é controlar portos e enseadas com as forças nacionais, pois a cocaína que atravessa o Pacífico “sai por navios mercantes”. “Com agências de inteligência implantadas dentro dos grupos dos traficantes” e “a coordenação com forças policiais de outros países” teriam conseguido apreender cada vez mais cocaína. Segundo o colombiano, com essa estratégia, o seu governo conseguiu apreender 2.800 toneladas de cocaína em três anos: teria sido a maior apreensão em toda a história do país.
Agora, teriam novos problemas, uma vez que os grupos se dedicam cada vez mais à extração de ouro ilegal na Amazônia e à coordenação de máfias em redes multinacionais em amplos circuitos financeiros. Diz ele: “O atual governo dos EUA parece estar rejeitando sua própria experiência com a Colômbia e mudando sua estratégia para uma equivocada que viola a soberania dos países da América Latina e do Caribe”.
Trump continua a atacar o presidente colombiano, em um período que se aproximam das eleições presidenciais e no qual ele tem fracassado nos acordos de paz com as guerrilhas. Petro encontra-se completamente enfraquecido popularmente, uma vez que seu governo não avançou em melhorar as condições de vida da população. Então, os ataques trumpistas não levam a crer que, de fato, vise alcançar uma estratégia antidrogas eficaz, mas sim influenciar as eleições colombianas do próximo ano, fomentando a vitória da extrema direita. Diz: “Agora, eles pensam que, enfraquecendo o movimento democrático da Colômbia, terão acesso mais fácil ao petróleo da Venezuela”[34].
Considerações finais. Quais de fato são os interesses por trás da retomada militar na região?
Neste artigo parti da constatação da militarização do Caribe e das agressões militares estadunidenses contra tripulações de pequenas embarcações venezuelanas e colombianas, acompanhadas de ameaças de invasão à Venezuela e agressões verbais e sanções ao presidente colombiano. Esses acontecimentos expressam, ao meu ver, uma nova configuração geopolítica estadunidense na região.
Analisei os aspectos ideológicos e discursivos (justificativas) que sustentam tais ações, responsáveis até o momento por mais de 60 execuções sumárias de tripulantes das embarcações. O “fio ideológico” encontra-se na associação que Trump realizou, desde o início do seu segundo mandato, entre narcotráfico, crime organizado e terrorismo, no que chamou “organizações terroristas estrangeiras”. Essa narrativa serve também para associar o bonapartista presidente venezuelano, Nicolás Maduro, como “líder do narcotráfico”, “permitindo” a justificação política e jurídica para a escalada militar.
Demonstrei que a rota central do tráfico de drogas para os EUA não é o Mar do Caribe nem a Venezuela, mas sim o Oceano Pacífico, utilizado por maiores embarcações e rotas comerciais complexas para tal tráfico. Identifiquei também que a associação entre narcotráfico e terrorismo internacional opera como instrumento político de intervenção nos assuntos internos dos países latino-americanos – combinando-se às sanções tarifárias e financeiras para ampliar o controle estadunidense sobre governos nacionais. Nesse contexto, tal qual governos e forças políticas de ultradireita pró-trumpistas na região, a ultradireita brasileira se associa às propostas do presidente americano, defendendo a militarização do combate ao crime organizado e sua equiparação jurídica ao terrorismo.
Dito isso, faço algumas considerações sobre o que, ao meu ver, encontra-se por trás dessas ações.
A recente ofensiva militar e naval dos Estados Unidos expressa um reposicionamento estrutural do imperialismo na América Latina, em meio à disputa geoeconômica e tecnológica com a China. Não se trata de uma reação pontual de combate ao narcotráfico, mas de um movimento – não linear e complexo – de recomposição da hegemonia estadunidense, voltado ao controle das infraestruturas críticas, cadeias logísticas, fluxos financeiros, energéticos e digitais – pilares da economia capitalista contemporânea.
O imperialismo estadunidense procura articula poder militar, domínio tecnológico e mineral, e influência jurídico-regulatória, como dimensões como complementares de uma mesma estratégia. No plano geoeconômico, associa sanções, licenças e acordos comerciais coercitivos para submeter governos locais – alinhados ou não ao trumpismo- às diretrizes estratégicas dos EUA. Exemplos marcantes são os do México, El Salvador e Honduras. Tecnologicamente, a tentativa é de monopolizar as redes digitais e de comunicação – 5 G, nuvens de dados e datacenters -, sob o pretexto de garantir padrões de “segurança” e “liberdade” de uso, mas assegurando a supremacia digital dos EUA.. No aspecto jurídico-institucional, a configuração de dependências normativas – tratados de segurança, cooperação judicial e padronização de controles sobre o ciberespaço – reforça a subordinação dos países latino-americanos à lógica imperialista. As atuais negociações entre o Brasil e EUA, em torno do chamado “tarifaço”, são elucidativas sobre essa integração assimétrica.
Essa estratégia estadunidense tem produzido um crescente alinhamento dos governos latino-americanos às diretrizes estadunidenses. Casos como Argentina, Paraguai, Equador, Honduras, El Salvador, México confirmam esse movimento. Por outro lado, nos países onde este alinhamento integral não existe, e seus governos são impopulares, como o caso da Venezuela e Colômbia, Trump força ainda mais seus desgastes político e “aplanam o caminho” para a chegada de governos de ultra-direita pró-trumpista.
Alguns centros estratégicos são prioritários para os EUA. O Canal do Panamá volta a ocupar papel central, não somente de trânsito mercantil, mas também nas comunicações digitais globais. O Canal e sua infraestrutura digital tornaram-se objeto de disputa entre EUA e China. A ameaça estadunidense, no início do ano, de uma possível invasão caso não rompesse contrato com a empresa chinesa que administra parte do Canal, revela a natureza coercitiva e extraterritorial da política estadunidense atual. O Triângulo do Lítio (Argentina, Bolívia e Chile), considerado coração mineral da transição energética, constitui outro ponto nevrálgico. Esses países tornaram-se alvo de intensas pressões diplomáticas e econômicas, visando o controle, direto ou indireto, sobre o lítio e sua cadeia de refino, essencial para a indústria de baterias, semicondutores e armamentos “inteligentes” dos EUA.
O caso brasileiro é mais complexo. As negociação em curso com os EUA envolvem temas de soberania digital, mineração e regulação tecnológica – e, possivelmente, a cooperação no combate ao narcotráfico sob o rótulo de “terrorismo internacional”. O debate desloca-se do plano estritamente energético para o campo tecnológico e mineral, envolvendo recursos estratégicos como nióbio, níquel, cobre, manganês e terras raras.
O Governo Lula é associado completamente às frações burguesas internas e internacionais. Embora conte com apoio popular em recuperação e mantenha parcialmente isolada a ultradireita bolsonarista, o governo conduz as negociações com os EUA completamente nos “bastidores”, à margem do debate público.. A pressão trumpista tem ocorrido de maneira diferente, pela via comercial e tecnológica, mas converge para o mesmo resultado: o entreguismo das riquezas nacionais e erosão completa da soberania científica e digital do país. Lula, como tem dito, está aberto à negociação, ou seja, propenso ao entreguismo. Enquanto isso, os trabalhadores e povo brasileiro desconhecem o teor real dessas tratativas.
Por fim, a atual ofensiva militar, econômica e tecnológica estadunidense na América Latina expressa a continuidade histórica do imperialismo na região, agora reformulado diante da disputa hegemônica com a China. A militarização do Caribe, o controle sobre recursos minerais e energéticos, e a imposição de padrões digitais e jurídicos compõem um mesmo projeto de reconfiguração do domínio estadunidense sobre o continente.
Em síntese, o que se observa é uma nova etapa da dependência latino-americana – marcada pela submissão tecnológica e digital – e a tentativa de reconstrução da hegemonia dos EUA sobre um subcontinente historicamente visto como seu “quintal estratégico”. A defesa da soberania e da autodeterminação dos povos latino-americanos exige, portanto, uma resposta política e intelectual à altura dessa ofensiva imperialista.
Autor: Luiz Fernando da Silva
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-5369-1996
DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17661499
ID Zenodo: https://zenodo.org/records/17661499
Link: https://marxismodebateecritica.org/trump-e-a-geopolitica-imperialista-para-a-america-latina/
Data da primeira publicação: 11/11/2025
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Notas
[1] Em dezembro de 1989, tropas militares estadunidense com 20 mil soldados invadiram o Panamá, o que levou a mais de 500 panamenhos mortos. A operação foi autorizada pelo presidente George H.W. Bush, alegando que o ditador Manuel Noriega, ex-“amigo” da CIA, ameaçava a vida e a propriedade americana (das empresas). Anteriormente, ele havia dado grande apoio aos EUA, às contrainsurgências na América Central, especialmente em El Salvador e Nicarágua. Chamada de Causa Justa, a operação militar que depôs Noriega justificativa que ele estava envolvido com tráfico de drogas, violações de direitos humanos, lavagem de dinheiro, anulação das eleições presidenciais, e criava crescente insegurança para os americanos no país. Ele era acusado de envolvimento com o Cartel de Medellin. Houve grande crítica internacional contra a violação da soberania panamenha que levou a número significativo de mortes. A operação teve confrontos com forças militares panamenhas. Foi julgado nos EUA e ficou preso 17 anos, sendo extraditado para a França em 2010, onde sofreu prisão por lavagem de dinheiro, e novamente extraditado em 2011 para o Panamá onde foi preso por crimes durante seu governo ditatorial. Morreu em 2017.
[2] Riley Mellen, Eric Schmitt, Christoph Koetti, Samuel Granados e Junho Lee, Onde os EUA estão aumentando a força militar no Caribe, NYT, 17/10/2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/17/us/politics/trump-caribbean-venezuela-us-military-maps.html
[3] Helene Cooper e Eric Schmitt, Militares dos EUA matam mais 14 pessoas acusadas de contrabandear drogas em barcos, The New York Times, 28 de outubro de 2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/28/us/politics/us-military-boat-strikes.html
[4] Kayla Esptein e Josh Cheetham, Como é o maior navio de guerra do mundo que EUA estão enviando para o Caribe, BBC News Brasil, 25 de outubro de 2025. Trump e Venezuela: como é o maior navio de guerra do mundo que EUA estão enviando para o Caribe – BBC News Brasil
[5] Maior porta-aviões do mundo, caças e a CIA: qual é o objetivo final de Trump na Venezuela?, BBC News Brasil, 24 de outubro de 2025. Qual é o objetivo final de Donald Trump na Venezuela? – BBC News Brasil
[6] Julian E. Barnese e Tyler Pager, Governo Trump autoriza ação secreta da CIA na Venezuela, The New York Times, 15 de outubro de 2025. https://www.nytimes.com/2025/10/15/us/politics/trump-covert-cia-action-venezuela.html
[7] Esses bombardeiros B-1 podem carregar até 34 toneladas de munições (bombas) guiadas e não guiadas.
[8] Eric Schmitt, Charlie Savage e Chris Cameron, EUA atacam segundo barco no Pacífico enquanto operação antidrogas se expande, Tha New York Times, 22/10/2025.
[9] Diz o ex apresentador da Fox News, Pete Hegseth, metamorfoseado em secretário de Defesa (Guerra, como batizado por Trump): “Ontem, sob a direção do presidente Trump, o Departamento de Guerra conduziu um ataque cinético letal a uma embarcação operada por uma Organização Terrorista Designada e que realizava narcotráfico no Pacífico Oriental”. E estabelece a seguinte comparação: “Assim como a Al-Qaeda travou guerra contra nossa pátria, esses cartéis estão travando guerra contra nossa fronteira e nosso povo. Não haverá refúgio nem perdão — apenas justiça.” https://x.com/SecWar/status/1981049943306752361
[10] Helene Cooper e Eric Schmitt, Militares dos EUA matam mais 14 pessoas acusadas de contrabandear drogas em barcos, The New York Times, 28 de outubro de 2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/28/us/politics/us-military-boat-strikes.html
[11] A investida de Trump no Mar do Caribe contra a Venezuela e em seguida contra a Colômbia parece ter criado algumas cisões pontuais na própria hierarquia militar. O chefe do Comando Sul dos EUA, Almirante Alvin Holsey, demitiu-se do cargo. Ele supervisionava as operações navais na América Central e do Sul.
[12] Eric Schitt, Charlie Savagee e Chris Cameron, EUA atacam segundo barco no Pacífico enquanto operação antidrogas se expande, The New York Times, 23/10/2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/22/us/politics/trump-drug-boat-strike-colombia.html
[13] Julian E. Barnes e Tyler Pager, Governo Trump autoriza ação secreta da CIA na Venezuela, The New York Times, 15 de outubro de 2025. https://www.nytimes.com/2025/10/15/us/politics/trump-covert-cia-action-venezuela.html
[14] Casa Branca. Ordem Executiva. Designar cartéis e outras organizações como organizações terroristas estrangeiras e terroristas globais especialmente designados, 20 de janeiro de 2025.
[15] CASA BRANCA. Ações Presidenciais, Invocação da Lei de Inimigos Estrangeiros sobre a Invasão dos Estados Unidos por Tren De Aragua, 15 de março de 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/03/invocation-of-the-alien-enemies-act-regarding-the-invasion-of-the-united-states-by-tren-de-aragua/
[16] Departamento do Tesouro dos EUA, Comunicado de Imprensa, O Deparamento do Tesouro sanciona cartel venezuelano liderado por Maduro, 25 de julho de 2025. https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0207
[17] Internacional Crisis Group, Greve antidrogas dos EUA desperta temores de intervenção na Venezuela, 03 de setembro de 2025. https://www.crisisgroup.org/latin-america-caribbean/andes/venezuela-united-states/us-anti-drugs-strike-stirs-fears-venezuela-intervention
[18] Departamento do Estado dos EUA. Aumento de recompensa de até US$ 50 milhões de dólares, 07 de agosto de 2025.
[19] Departamento do Tesouro dos EUA, Tesouro sanciona cartel venezuelano liderado por Maduro, 25 de julho de 2025. https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0207
[20] Samuel Granados, Genevieve Glatsky e Annie Correal, Por que explodir barcos venezuelanos não vai parar o fluxo de drogas, The New York Times, 9/10/2025.
https://www.nytimes.com/interactive/2025/10/09/world/americas/drug-trafficking-venezuela.html
[21] Relatório Mundial sobre Drogas do UNODC 2025: A instabilidade global agrava os custos sociais, econômicos e de segurança do problema mundial das drogas. 26 de junho de 2025.
[22] The New York Times, 8 de agosto de 2025.
[23] Annie Correal, Guatemala recebe ajuda dos EUA na repressão a guangues após fuga da prisão, The New York Times, 15/10/2025. https://www.nytimes.com/2025/10/15/world/americas/guatemala-prison-break-penal-reforms.html
[24] Matthew Lee, Guatemala oferece a Rubio um segundo acordo de deportação para migrantes enviados para casa pelos EUA, Associeted Press, 06 de fevereiro de 2025.
[25] Câmara dos Deputados. PL 1283/2025 – Projeto de Lei, 27/03/2025. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2490514
[26]Geovana Melo, Questionado pelos EUA, governo brasileiro diz que não classifica facções criminosas do país como terroristas, G1, 07/05/2025. https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/05/07/questionado-pelos-eua-governo-brasileiro-diz-nao-classifica-faccoes-criminosas-como-terroristas.ghtml
[27] Anatoly Kurmanaev, Julian E. Barnese, Julie Turkewitz, Maduro, da Venezuela, ofereceu aos EUA as riquezas de sua nação para evitar conflitos, The New York Times, 10 de outubro de 2025. https://www.nytimes.com/2025/10/10/world/americas/maduro-venezuela-us-oil.html#:~:text=Leer%20en%20espa%C3%B1ol,Maduro%20of%20Venezuela%20in%20Caracas.
[28] Julian E. Barnes, John Ratcliffe apresenta uma visão para uma CIA mais agressiva, 15 de janeiro de 2025.
[29] Julian E. Barnese e Tyler Pager, Governo Trump autoriza ação secreta da CIA na Venezuela, The New York Times, 16 de outubro de 2025. https://www.nytimes.com/2025/10/15/us/politics/trump-covert-cia-action-venezuela.html
[30] Eric Schitt, Charlie Savagee e Chris Cameron, EUA atacam segundo barco no Pacífico enquanto operação antidrogas se expande, The New York Times, 23/10/2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/22/us/politics/trump-drug-boat-strike-colombia.html
[31] Sobre a cristalização bonapartista no país vide: Venezuela despues de Chavez. Um balance necessário, organizado por Alejandro Iturbe, com artigos de diversos autores. Embora o título, especialmente é analisado o período entre 2004 e 2007. São Paulo: Ed. Lorca, 2013.
[32] Julie Turkewitz e Robert Jimison, Presidente da Colômbia diz que barco bombardeado pelos EUA transportava colombianos, New York Time, 08/10/2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/08/world/americas/colombia-citizens-boat-us-bombed.html
[33] Simon Romero, Geneviève Glatskye e Zolan Kanno-Youngs, Líder colombiano acusa EUA de assassinato, levando Trump a suspender ajuda, 19/10/2025.
https://www.nytimes.com/2025/10/19/world/americas/trump-colombia-petro-aid.html
[34] Gustavo Petro, Post no X, 22/10/2025.
DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17661499
ID Zenodo: 17661499
Registro no Zenodo: https://zenodo.org/records/17661499
Publicado originalmente em: https://marxismodebateecritica.org/trump-e-a-geopolitica-imperialista-para-a-america-latina/
Licença: CC BY-NC 4.0



