Essa ofensiva não começou em outubro de 2023, quando o Hamas entrou em Israel, matou civis e fez cerca de 250 civis reféns, o que serviu como justificativa sionista para aprofundar a “limpeza étnica” palestina que já estava em curso. Esse processo é histórico e está associado à própria constituição do Estado sionista de Israel, apoiado pela ONU e a maioria de seus integrantes[1]. Na história mais recente da Palestina, essa ofensiva foi retomada depois de 2007, após a maioria dos palestinos elegerem em processo eleitoral o Hamas como seu governo. Desse período para cá, aprofundou-se a escalada de assassinatos, recolonização da Cisjordânia, cerco militar a Gaza e todas as atrocidades envolvidas.
O cessar-fogo de dois meses em Gaza, iniciado em janeiro de 2025, fracassou. Desde 2 de março, as forças de ocupação israelenses recuaram no cessar-fogo e no acordo de troca de prisioneiros com o Hamas. Em 18 de março, Israel retornou à sua ofensiva genocida contra o povo palestino. Fecharam as travessias de Gaza para os caminhões com ajuda humanitária ao longo da fronteira e continuaram a aprofundar o cerco a Gaza e a expulsão de palestinos da Cisjordânia..
Em uma grande escalada naquele dia 18, Israel lançou ataques aéreos que mataram cerca de 600 palestinos em 48 horas, incluindo pelo menos 200 crianças e 89 mulheres. Desde o rompimento do acordo, intensificou-se a ofensiva militar para reocupar e “limpar” Gaza e anexar Cisjordânia. Pelo menos 4.100 palestinos foram assassinados em maio, outros 2.000 palestinos em junho. O número de mortos em 30 de junho ultrapassava 6.175 desde que Israel quebrou o cessar-fogo em 18 de março. Desde outubro de 2023 até 14 de agosto de 2025 (677 dias) são estimados 61.776 mortos, 154.906 feridos, além de 11 mil desaparecidos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza[2]. Ao definir essas mortes, não se sabe ao certo quantos ainda estão por baixo dos escombros de prédios destruídos por mais de 82 mil toneladas de bombas. Desde de outubro de 2023, cerca de 1,5 milhão de palestinos, de uma população de 2,2 milhões, ficaram desabrigados após suas casas serem destruídas na guerra de extermínio.
O Hamas em seu acordo no cessar-fogo exigia que incluísse a retirada israelense completa, o fim do cerco e a troca de reféns israelenses com seus mais de 10 mil prisioneiros em cárceres judeus. O primeiro-ministro israelense, Netanyahu, em 20 de abril, rejeitou as exigências, reiterando o compromisso com a “importante visão” de Trump de remover a população de Gaza. A liderança israelense traçou um plano que inclui ocupação indefinida para fragmentar o território, desarmamento, exílio/destruição completa do Hamas e a chamada “emigração voluntária”, ou seja, expulsão em massa dos palestinos do seu próprio território.
Após encerrar o cessar-fogo, Israel cortou a entrada de alimentos, remédios, combustível, água e outros suprimentos para Gaza por dois meses e meio, dizendo que tinha como objetivo pressionar o Hamas a libertar seus reféns. Sob pressão internacional, Israel “aliviou” ligeiramente o bloqueio em maio, permitindo a entrada média de 69 caminhões por dia, para distribuição pela ONU e outros grupos humanitários, média muito abaixo dos 500 a 600 caminhões por dia que a ONU afirma serem necessários para Gaza. A Instituição afirma não ter conseguido distribuir grande parte da ajuda porque multidões famintas e gangues roubam a maior parte dos caminhões que chegam.
Apesar das alegações das autoridades israelenses de que não há impedimentos para a ajuda humanitária em Gaza, a maioria das principais ONGs internacionais denunciam que não consegue entregar um único caminhão de suprimentos vitais desde 2 de março[3]. “Em vez de resolver o crescente acúmulo de suprimentos, as autoridades israelenses rejeitaram pedidos de dezenas de ONGs para levar suprimentos vitais, alegando que essas organizações ‘não estão autorizadas a entregar ajuda’. Só em julho, mais de 60 pedidos foram negados com essa justificativa”. Essa obstrução, ainda de acordo com documento das ONGs, deixou milhões de dólares em alimentos, remédios, água e itens de abrigo abandonados em armazéns na Jordânia e no Egito, enquanto os palestinos estão morrendo de fome. Tal exclusão deixou hospitais sem suprimentos básicos, crianças, pessoas com deficiência e idosos morrendo de fome e doenças evitáveis, e os próprios trabalhadores humanitários tendo que trabalhar com fome.
A obstrução está vinculada às novas regras de registro de ONGs internacionais, introduzidas em março. Segundo essas novas regras, o registro pode ser negado com base em critérios vagos e politizados, como a suposta “deslegitimação” do Estado de Israel. O processo foi elaborado para controlar organizações independentes, silenciar ativistas e censurar reportagens humanitárias. Essa nova obstrução burocrática é inconsistente com o direito internacional estabelecido, pois consolida o controle e a anexação de Israel sobre o território palestino ocupado.
A atual trégua, embora importante para os palestinos, é um faz de conta sionista
No domingo, dia 27 de julho, Israel interrompeu operações militares, provisoriamente, em três áreas povoadas de Gaza por 10 horas diárias, e “permitiu” novos corredores de ajuda. Enquanto Jordânia e Emirados Árabes Unidos lançavam cerca de 25 toneladas de ajuda por paraquedas. Além de não substituir a entrega por terra, tais lançamentos ferem e matam. Pelo menos dez pessoas ficaram feridas nesse domingo.
Esse “faz de conta israelense” ocorre em meio às preocupações com o aumento da fome no território e enquanto Israel enfrenta uma onda de críticas internacionais sobre sua conduta na guerra de 21 meses. Essa “pausa tática” diária ocorre nas cidades de Gaza, Deir al-Balah e Muwasi. A mudança de postura de Israel em relação à crise humanitária é um reconhecimento de que havia palestinos famintos em Gaza. Semelhante ao ocorrido em outras vezes, a medida tem como objetivo melhorar sua posição do Estado sionista internacionalmente e não salvar vidas.
O exército de ocupação israelense usa o termo “trégua humanitária” como pretexto para os massacres em andamento, não para deter a máquina de matar civis ou facilitar a ajuda humanitária contra a fome. Soldados da ocupação continuaram a atirar diretamente contra civis que aguardavam ajuda, resultando em mais mortes e feridos. Essas cenas demonstram claramente a falsidade das alegações israelenses e expõem a narrativa oficial, que tenta encobrir a ficha criminal da ocupação.
Israel não se limitou a matar. Em cooperação com a mídia oficial e acompanhado pela mídia árabe cúmplice e dirigida, lançou extensas campanhas de propaganda para enganar a opinião pública sobre a situação humanitária em Gaza. Na última quinta-feira, o Gabinete de Imprensa do Governo em Gaza alertou sobre campanhas deliberadas destinadas a espalhar notícias enganosas sobre a entrada de grandes quantidades de ajuda, salientando que o que realmente entrou não excede 1% da necessidade diária e não satisfaz as necessidades da população sitiada. Essas campanhas se baseiam em vídeos pré-preparados que distribuem ajuda limitada fornecida por organizações internacionais, apresentados como “conquistas humanitárias” graças à ocupação, embora Gaza precise de pelo menos 600 caminhões por dia em circunstâncias normais, sem falar no atual estado de emergência.
Dezenas de contas de mídia social árabes também têm se mostrado ativas na promoção da narrativa da ocupação, usando frases como “a fome acabou” e “o cerco foi quebrado”, em tentativas flagrantes de confundir a opinião pública e ludibriar a solidariedade árabe e internacional
No mesmo dia em que Israel anunciou o que descreveu como “tréguas humanitárias” em várias partes da Faixa de Gaza, o Ministério da Saúde de Gaza confirmou que mais de 100 palestinos foram mortos e 382 feridos foram transferidos para hospitais na Faixa somente nas últimas 24 horas. O ministério observou que um grande número de vítimas permanece sob os escombros e nas ruas, com equipes de ambulância e defesa civil incapazes de alcançá-las devido ao bombardeio em andamento[4].
O Hamas denunciou no domingo (28 de julho) as medidas israelenses para permitir mais ajuda em Gaza, dizendo que Israel continuava sua ofensiva militar. “O que está acontecendo não é uma trégua humanitária”, disse o dirigente do Hamas na declaração. Baraka afirma que as alegações de Israel em se comprometer com uma “trégua humanitária” em Gaza visam enganar a opinião pública internacional enquanto continua a cometer massacres contra os palestinos no enclave sitiado. A ocupação israelense continuou matando e ferindo muitos palestinos famintos no domingo, enquanto esperavam por ajuda humanitária em diversas áreas da Faixa de Gaza. Ele também reiterou o apelo à comunidade internacional, as Nações Unidas e as organizações humanitárias e de direitos humanos tomem medidas imediatas para pôr fim aos massacres israelenses em andamento, rompam o cerco injusto imposto à Faixa de Gaza, abram urgentemente e permanentemente as passagens terrestres e permitam a entrada incondicional de alimentos, assistência médica e ajuda humanitária. Por último enfatizou que o silêncio do mundo sobre os crimes horríveis de Israel equivale a uma “cumplicidade tácita neles”, alertando que “a história não será misericordiosa com aqueles que conspiram ou assistem ao sofrimento dos palestinos, incluindo assassinatos e fome”.
Ghazi Hamad (Hamas) revelou os desdobramentos das negociações em andamento sobre um cessar-fogo na Faixa de Gaza[5] . Em um comunicado à imprensa no sábado (26/07/25), Hamad explicou que “o movimento apresentou uma visão realista e objetiva para chegar a um acordo e lidou com todas as questões em jogo com flexibilidade e positividade, garantindo os direitos do povo palestino”, observando que “os mediadores estão atualmente trabalhando para retomar as negociações”. Enfatizou que o Hamas demonstrou total seriedade durante as negociações e que suas posições foram bem recebidas pelos mediadores. Acrescentou que “o principal objetivo dessas negociações é interromper a agressão contra os palestinos em Gaza”. Ele explicou que “o movimento está buscando um acordo que leve a um cessar-fogo e à retirada das forças de ocupação após uma trégua de 60 dias”, observando que “a atmosfera era positiva e estávamos perto de um acordo, aguardando a resposta dos mediadores”. Alertou que “a ocupação israelense está tentando destruir completamente Gaza, usando todos os meios de pressão” e expressou sua surpresa com a posição americana, que não forneceu nenhum esclarecimento sobre sua política em relação à situação.
Ele ressaltou que “está tentando alcançar por meio de negociações o que não foi conseguido alcançar em campo, mas o Hamas conseguiu impedir a imposição de mapas de retirada que atendem apenas aos interesses da ocupação e rejeitou um acordo que daria à ocupação controle total sobre o processo de assentamento”. Considerou que “as negociações não são menos importantes que a batalha militar e que elas estão repletas de riscos”, afirmando que “o movimento nunca foi um obstáculo para se chegar a um acordo, mas conseguiu melhorar muitas das condições que a ocupação tentou impor”. Ele destacou que o Hamas busca, por meio do acordo, garantir a libertação do maior número possível de prisioneiros palestinos, rejeitando qualquer tentativa de excluir qualquer facção palestina do cenário político. Concluindo seus comentários, Hamad pediu “ação árabe e internacional urgente para pressionar a ocupação a interromper seus crimes na Faixa de Gaza”.
O sionismo judeu é bem nítido sobre o que sucede. O ministro da Segurança Nacional de Israel, de extrema direita, Itamar Ben-Gvir, criticou a decisão sobre a ajuda, afirmando que ela foi tomada sem seu envolvimento. Ele a chamou de capitulação à campanha enganosa do Hamas e repetiu seu apelo para cortar toda a ajuda a Gaza, conquistar o território e encorajar os palestinos a partir[6].
O sionismo israelense no Oriente Médio tensiona também intervenções militares na Líbia, contra o Hezbolah, e reocupando as Colinas de Golã, e recentemente atacando Damasco (Síria), em uma ofensiva na estratégia de expansão para partes desse país. Dentro desse horizonte ataca, sem aviso prévio, ao Irã, estabelecendo o que ficou conhecido como a Guerra dos 12 dias. Uma guerra, que, ao que indica, não está encerrada. Em todas essas intervenções existe um completo apoio logístico e armamentístico estadunidense. Por sua vez, os apelos e declaração da União Europeia e países árabes na região (Arábia Saudita, Emirados Árabes, Omã) são palavras jogadas ao vento, uma vez que eles mantém relações comerciais, inclusive militares, e em diferentes áreas econômicas
Existe uma lógica nessas ações sionistas, que não se importam com a opinião pública internacional, ao ponto de analistas dizerem que Israel estaria “descontrolado”. Ou mesmo que os lobbies sionista do país comandam a política externa dos EUA para o Oriente Médio: o rabo mexeria o cachorro, ou o cachorro mexeria o rabo?
A fome transforma-se em estratégia de guerra e ocupação
Antes mesmo da quebra do acordo de cessar-fogo, em 02 de março, Israel já tinha imposto um cerco total a Gaza, interrompendo toda a ajuda humanitária pela primeira vez desde o início da guerra. O corte de energia forçou o fechamento de uma grande usina de dessalinização no centro de Gaza, impedindo o acesso à água limpa para grande parte da população. Grupos de ajuda humanitária alertaram que as condições terríveis ameaçavam novamente a população com fome em massa. Em meio ao bloqueio total de alimentos e bens, a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar (IPC), medida global da fome da ONU, relatou em maio deste ano que os 2,2 milhões de habitantes de Gaza estavam sob “risco crítico” de fome, estimando que um em cada cinco habitantes estava morrendo de fome. Pelo menos 57 pessoas, a maioria crianças, morreram de fome somente naquele mês de março.
O bloqueio genocida sobre Gaza interrompeu todos os alimentos, medicamentos, água limpa e outras ajudas, e continuou a levar a população à fome. A impotente ONU declarou que Gaza “agora provavelmente enfrenta a pior crise humanitária”, desde o início da guerra. O Programa Mundial de Alimentos informou na ocasião que seus estoques de alimentos estavam “completamente esgotados”. O bloqueio sionista à chegada de alimentos na região é uma verdadeira “ferramenta de extermínio”, como a própria Human Rights Watch caracterizou. Israel “permitiu”, em 19 de maio, a entrada dos primeiros caminhões de ajuda humanitária na Faixa de Gaza após um cerco de quase 80 dias.
O que está em curso é a tentativa de manter a população de Gaza abaixo do limite da fome. Os alimentos transformaram-se em arma de guerra! A capacidade de produção de alimentos em Gaza é praticamente inexistente, porque foi destruída. As forças militares israelenses controlam as travessias, o que significa controlar a própria sobrevivência dos palestinos.
As restrições sionistas israelenses limitaram o Programa Mundial de Alimentos (PMA) a entregar menos de 1.600 calorias por pessoa diariamente, muito abaixo de sua meta de 2.100 calorias, de julho de 2024 até o cessar-fogo de janeiro de 2025. O PMA promete trazer um pouco mais, cerca de 1.750 calorias, mas apenas para os “centros fortificados”, que os palestinos precisam atravessar os campos de batalha para alcançar. Se o caos resultante impedir até mesmo essa meta insuficiente, Gaza caminhará para a morte em massa, como o Comitê de Revisão da Fome do CPI alertou.
A intenção de matar Gaza de fome quanto a existência de fome em massa no local, atribuindo as restrições de ajuda à necessidade militar. Oficiais militares israelenses reconhecem reservadamente a realidade, e membros do gabinete a aprovam publicamente. O Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse que matar os moradores de Gaza de fome “até a morte” seria “justo e moral” até que os reféns israelenses restantes na faixa sejam libertados. O Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, disse que “a única ajuda que entra em Gaza deve ser para ajudar a emigração voluntária”, insistindo que, enquanto os reféns permanecerem cativos, “o inimigo” não deve receber “nenhuma comida, nenhuma eletricidade e nenhuma outra ajuda”. Essas vozes refletem um ânimo antipalestino generalizado, segundo o qual o sofrimento em massa de civis é aceitável.
Como forma de desviar a distribuição de ajuda do controle da ONU, Israel apoiou a Fundação Humanitária de Gaza (FHG), registrada nos EUA, que em maio abriu quatro centros de distribuição de caixas de suprimentos alimentares. Mais de 1.000 palestinos foram mortos pelas forças israelenses desde maio enquanto tentavam obter alimentos, principalmente perto desses novos locais de ajuda, segundo o escritório de direitos humanos da ONU. A GHF mantém quatro centros de distribuição em áreas ocupadas pelo exército israelense. Alegando que o Hamas pudesse roubar a ajuda para a região, Israel substituiu a infraestrutura da ONU, com décadas de existência, que distribuía ajuda em 400 locais em Gaza. O esquema aprofundou o desastre humanitário. Além disso, essa empresa contratou empresas de segurança para administrar a logística. Um completo desastre intencional passou a ocorrer. Imagens que percorreram o mundo (relatos, vídeos e fotos) testemunham soldados e contratados israelenses usando força letal contra palestinos famintos que faziam filas para entrar nessas áreas de distribuição. As forças israelenses continuam atirando em multidões de palestinos famintos quase diariamente, quase 700 pessoas foram mortas e 4 mil feridos perto dos locais da GHF, entre 26 de maio e 16 de julho[7].
EUA e Israel são os culpados pelo genocídio, e especialmente culpados por estabelecerem um esquema de ajuda que faz com que os palestinos enfrentem a morte ou ferimentos toda vez que tentam obter os alimentos de que precisam para continuarem a sobreviver e lutarem para defenderem seu território.
O chefe da UNRWA, em 17 de junho, disse que “convidar pessoas para a morte é um crime de guerra”. Em meio às restrições contínuas de Israel à entrada de ajuda humanitária, relatório da ONU no início de junho disse que o risco de fome “está se tornando cada vez mais provável”, enquanto a UNICEF, em 19 de junho, encontrou 16.736 crianças internadas em hospitais por desnutrição de janeiro a maio.
A ONG Médicos sem Fronteira, entre outras, faz uma denúncia central contra a tal GHF. Aitor Zabalgogeazkoa, coordenador de emergência de MSF em Gaza, diz:
“Os quatro locais de distribuição, todos localizados em áreas sob o controle total das forças israelenses depois que as pessoas foram deslocadas à força de lá, são do tamanho de campos de futebol cercados por postos de vigilância, montes de terra e arame farpado.
A entrada cercada oferece apenas um ponto de acesso, de entrada ou saída. Os trabalhadores do GHF largam os paletes e as caixas de comida e abrem as cercas, permitindo que milhares de pessoas entrem de uma só vez para lutar até o último grão de arroz.
Se as pessoas chegam cedo e se aproximam dos postos de controle, são baleadas. Se chegam na hora, mas há um congestionamento e pulam os montes e os fios, são baleadas.
Se chegarem atrasados, não deveriam estar ali porque é uma “zona evacuada”, eles são baleados.” [8]
Mais recentemente no dia 14 de agosto, cerca de 100 ONGs internacionais denunciaram o completo cerceamento da entrada de alimentos no território palestino. Reforçam também as denúncias contra a Fundação Humanitária de Gaza (GHF)[9]. Essas restrições fazem parte de uma estratégia mais ampla que inclui o chamado esquema “GHF”: mecanismo de distribuição militarizado promovido como uma solução humanitária. Na realidade, é uma “ferramenta mortal de controle”, em torno dos locais do GHF desde que começou a operar.
A UNRWA, agência de assistência da ONU, também está proibida de levar ajuda a Gaza há mais de 5 meses. Em nota, seu comissário, Philippe Lazzarini, afirmou que os armazéns da agência no Egito e na Jordânia “estão cheios de alimentos, remédios e suprimentos de higiene para encher 6.000 caminhões”[10].
Tanto o esquema da Fundação quanto o impedimento de registro de ONGs internacionais visam bloquear a ajuda imparcial, excluir atores palestinos e substituir organizações humanitárias confiáveis por mecanismos que atendam a objetivos políticos e militares. Essas medidas surgem quando o governo sionista israelense intensifica sua ofensiva militar e aprofunda sua ocupação em Gaza, deixando claro que essas medidas fazem parte de uma estratégia mais ampla para consolidar o controle e eliminar a presença palestina.
Quando o GHF iniciou suas operações em maio, a população de Gaza já estava faminta. Israel impôs um bloqueio total por onze semanas, levando os 2,2 milhões de palestinos a enfrentar uma insegurança alimentar com risco de vida. Agora, após o cessar-fogo, com a expansão anunciada das operações militares em toda a Faixa de Gaza, a incapacidade persistente das agências humanitárias de acessar populações em extrema necessidade, uma escalada prevista nas hostilidades e o contínuo deslocamento em massa de pessoas, o risco de fome na Faixa de Gaza não é apenas possível, mas cada vez mais provável. De acordo com relatório da Global Report on Foos Crises:
“Dezenove meses após o início do conflito, a Faixa de Gaza ainda enfrenta um risco crítico de fome. Mais de 60 dias se passaram desde que toda a ajuda humanitária e suprimentos comerciais foram bloqueados no território. Os bens indispensáveis à sobrevivência da população estão esgotados ou devem acabar nas próximas semanas. Toda a população enfrenta altos níveis de insegurança alimentar aguda, com meio milhão de pessoas (uma em cada cinco) enfrentando a fome.
De 11 de maio até o final de setembro de 2025, todo o território será classificado em Emergência (Fase 4 do IPC), com a previsão de que toda a população enfrente Crise ou insegurança alimentar aguda grave (Fase 3 ou superior do IPC). Isso inclui 470.000 pessoas (22% da população) em Catástrofe (Fase 5 do IPC), mais de um milhão de pessoas (54%) em Emergência (Fase 4 do IPC) e o restante meio milhão (24%) em Crise (Fase 3 do IPC). Isso marca uma deterioração significativa em comparação à análise anterior do IPC (divulgada em outubro de 2024) e às condições já terríveis detectadas entre 1º de abril e 10 de maio de 2025. Durante esse período, 1,95 milhão de pessoas (93%) foram classificadas em Crise ou pior (IPC Fase 3 ou superior), incluindo 244.000 pessoas (12%) na Fase 5 do IPC (Catástrofe) e 925.000 (44%) na Fase 4 do IPC (Emergência).”[11]
O relatório do IPC termina com recomendações “óbvias” e pontuais, evidentemente que não atingem o cerne da questão, mas são recomendações fundamentais: a) cessar-fogo imediato, incondicional e sustentado para reduzir o risco de fome e reverter os níveis catastróficos de sofrimento humano; b) acesso humanitário irrestrito, seguro, estável e sustentado garantido para fornecer assistência e serviços multissetoriais que salvem vidas em larga escala, como alimentos, assistência médica, água e saneamento, combustível e gás de cozinha; c) proteger civis e trabalhadores humanitários para que possam prestar assistência humanitária sem impedimentos; d) proteger e restaurar a infraestrutura crítica para a sobrevivência e para a prestação de assistência e serviços humanitários, e para o funcionamento regular dos sistemas de alimentação, saúde, água e saneamento; (“A assistência alimentar por si só não evitará a fome”); e) restaurar em escala o fornecimento comercial, os serviços essenciais, os sistemas de mercado e a produção local.
O plano de “ajuda” israelense em Gaza, integra alimentos à estratégia militar. Desde o início da guerra, em 2023, Israel restringiu a ajuda, flexibilizando-a quando surgiam denúncias e alertas de fome e intensificando-a à medida que a atenção pública internacional se dispersava. Agora, em meio a uma implementação sangrenta, o novo mecanismo estratégico parece visar aprofundar a fome em vez de eliminá-la.
Segundo a ONU, 82,6% da Faixa de Gaza está dentro da zona militar israelense/sob ordens de deslocamento. Militantes em Gaza mataram 20 soldados israelenses em junho, marcando o maior número mensal de mortos desde outubro de 2024. O presidente dos EUA, Trump, renovou os apelos por um acordo em Gaza em uma publicação nas redes sociais em 29 de junho, impulsionando os esforços para alcançar um cessar-fogo em julho.
A reocupação territorial de Gaza e Cisjordânia
Israel continua a tentar remodelar a geografia e a demografia de Gaza e também da Cisjordânia. Em uma escalada radical, o gabinete israelense, em 4 de maio último , endossou a Operação Carros de Gideão, iniciada em meados de maio, para “limpar” Gaza, encurralar toda a população em “zonas higienizadas” controladas e sustentá-la com rações abaixo do nível de sobrevivência. O plano em curso visa mais privações e prepara o cenário para o deslocamento forçado ou internamento em massa prolongado, com alto risco de morte em massa por bombardeios, fome e doenças.
Netanyahu expressou nitidamente apoio ao plano proposto por Trump para que os palestinos sejam retirados da Faixa de Gaza. Essa proposta enfureceu os palestinos e as nações árabes. Disse ele em 12 de maio: “Montamos uma administração que permitirá que eles saiam, mas o problema conosco é um só: precisamos de países receptivos” (…) “É nisso que estamos trabalhando agora. Se vocês derem sinal verde, eu lhes digo que mais de 50% sairão, e acredito que muito mais.” [12]
O impotente Secretário-Geral da ONU, António Guterres, no início de abril declarava que “Gaza é um campo de extermínio” com civis presos em um “ciclo mortal sem fim”. A ineficaz ONU, em 15 de abril, relatava que 69% da faixa era uma “zona proibida”, controlada por Israel ou sujeita a ordens de evacuação. Isso forçou que 2,2 milhões de civis se refugiassem em estreitas áreas costeiras no sul e perto da cidade de Gaza. O Estado sionista prosseguiu em março com o plano de arrasar quase toda Rafah, cidade mais ao sul de Gaza. Retomou o controle do Corredor de Netzarim e ordenou a evacuação da cidade de Rafah, forçando milhares de palestinos a fugir.
Na Cisjordânia, a violência militar e dos colonos israelenses continuou. As forças israelenses continuaram as operações e demolições em massa no norte da Cisjordânia, destruindo notavelmente prédios residenciais nos campos de refugiados de Jenin e Tulkarem. Dezenas de colonos israelenses invadiram a vila de Kfar Malik, perto de Ramallah, em 25 de junho, incendiando propriedades, enquanto o exército israelense matava vários palestinos que defendiam suas casas. Por sua vez, na Cisjordânia, Israel avança com grandes apropriações de terras. Continuou a operação militar em larga escala iniciada no final de janeiro, com incursões contínuas e severas restrições à movimentação de palestinos na região. O estado sionista ampliou suas operações com a Operação Muro de Ferro, lançada em janeiro deste ano, possivelmente a ante sala para a anexação total de partes da Cisjordânia e para novas áreas, ameaçando Nablus, Hebron e o campo de refugiados de Dheisheh, ao sul de Belém. Em 10 e 11 de março, mataram cinco pessoas e deslocaram mais de 500 palestinos do leste da cidade de Jenin. O exército israelense anunciou planos para demolir 180 casas nos campos de refugiados de Jenin e Al Ein, ameaçando o deslocamento de milhares de pessoas, além dos 40.000 deslocados desde janeiro. Em abril, as forças israelenses conduziram uma operação de 22 horas de duração no campo de refugiados de Balata, em Nablus. Forças israelenses e colonos mataram 110 palestinos na Cisjordânia.
O gabinete israelense aprovou, em 12 de maio, uma proposta para conceder direitos legais permanentes aos colonos israelenses em territórios ocupados pela primeira vez desde 1967. Na prática isso significa a anexação de fato. Em 29 de maio, Israel aprovou o estabelecimento de 22 assentamentos judaicos na Cisjordânia, marcando a maior expansão em décadas.
Genocídio rima inteiramente com interesses imperialistas do capital
Relatório Da economia genocida à economia de ocupação (2025)[13] ajuda a desvelar os interesses capitalistas velados na ocupação e genocídio na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
O relatório sugere contratos multimilionários com o Ministério da Defesa israelense. O Orçamento militar de Israel em 2024 aumentou 65%, totalizando US$ 46,5 bilhões. Empresas como Elbit Systems, IAI e Lockheed Martin lucraram diretamente com fornecimento de armas, drones e tecnologia bélica usada nas ofensivas em Gaza. Exportações militares israelenses aumentaram, com contratos derivados de produtos “testados em combate”. Empresas como NSO Group (Pegasus), Motorola Solutions e IBM participam de sistemas de vigilância populacional e controle de fronteiras. Lucros indiretos vêm da exportação de tecnologias “validadas” em contexto de ocupação.
Mais de 371 colônias e postos avançados ilegais foram construídos, abastecidos e comercializados por empresas que facilitam a substituição da população palestina por colonos judeus, no território ocupado. Em 2024, isso se intensificou depois que a administração das colônias passou do governo militar para o civil e o orçamento do Ministério da Construção e Habitação dobrou, incluindo US$ 200 milhões para a construção de colônias.
De novembro de 2023 a outubro de 2024, Israel estabeleceu 57 novas colônias e postos avançados, com empresas israelenses e internacionais fornecendo máquinas, matérias-primas e suporte logístico.
As escavadoras Caterpillar, HD Hyundai e Volvo e os equipamentos pesados têm sido utilizados na construção de colónias ilegais há pelo menos 10 anos. A empresa alemã Heidelberg Materials AG, através da sua subsidiária Hanson Israel, contribuiu para a pilhagem de milhões de toneladas de rocha dolomítica da pedreira Nahal Raba em terras confiscadas a aldeias palestinianas na Cisjordânia. Em 2018, a Hanson Israel ganhou um concurso público para fornecer materiais dessa pedreira para a construção de colónias, e desde então tem quase esgotado a pedreira, o que levou a pedidos de expansão contínuos.
Várias empresas contribuíram para desenvolver estradas e infraestrutura de transporte público essenciais para estabelecer e expandir as colônias e conectá-las a Israel, ao mesmo tempo em que excluíam e segregavam os palestinos. A espanhola/basca Construcciones Auxiliar de Ferrocarriles juntou-se a um consórcio com uma empresa listada no banco de dados da ONU para manter e expandir a “Linha Vermelha” do VLT de Jerusalém e construir a nova “Linha Verde”, em um momento em que outras empresas se retiraram devido à pressão internacional. Essas linhas incluem 27 quilômetros de novos trilhos e 53 novas estações na Cisjordânia, conectando as colônias a Jerusalém Ocidental. Escavadeiras e máquinas Doosan e Volvo foram usadas, e a subsidiária de Heidelberg forneceu materiais para ponte.
Empresas imobiliárias vendem imóveis nas colônias para compradores israelenses e internacionais. O grupo imobiliário global Keller Williams Realty LLC, por meio de sua franqueada israelense KW Israel, possui filiais nas colônias. Em março de 2024, a Keller Williams, por meio de outra franqueada, a Home in Israel, ] realizou um roadshow imobiliário nos EUA e Canadá, copatrocinado por diversas empresas que desenvolvem e comercializam milhares de apartamentos nas colônias.
Chevron explora gás natural dos campos de Leviathan e Tamar, inclusive fornecendo energia para a operação militar e setores civis em Israel. Em 2023, Chevron relatou US$ 453 milhões de lucros líquidos com operações em Israel.
Empresas como Tnuva e exportadoras de produtos agrícolas das colônias obtêm lucros com venda interna e exportação. O relatório cita substituição de produtos palestinos por israelenses nas regiões ocupadas, favorecendo o monopólio.
Plataformas como Booking.com e Airbnb recebem comissões de até 23% por hospedagens em colônias ilegais. Geração de lucro pela normalização da ocupação, impulsionando o turismo em áreas disputadas.
Fundos como Blackrock, Vanguard, Barclays, HSBC lucram com investimentos em empresas que atuam na ocupação.
O relatório estima dezenas de bilhões de dólares investidos, parte dos quais direcionados para armamentos, tecnologia e infraestrutura colonial.
[1] Livro fundamental para o conhecimento histórico sobre a “limpeza étnica da Palestina”, que envolve as determinações na constituição do Estado de Israel, é A limpeza étnica da Palestina, de Ilan Pappé (Ed. Sundermann, 2016).
[2] Middle East Monitor, 14 de agosto de 2025 – https://www.middleeastmonitor.com/
[3] OXFAM, Gaza: Israel ameaça proibir grandes organizações de ajuda humanitária à medida que a fome se agrava, 14 de agosto de 2025 – https://www.oxfam.org.uk/media/press-releases/gaza-israel-threatens-to-ban-major-aid-organizations-as-starvation-deepens/
[4] Reuters.
[5] Quds Press, “Lider do Hamas: As negociações estão em um estágio delicado e rejeitamos a exclusão ou a imposição de mapas israelenses, 17 de junho de 2025”, – https://qudspress.com/209385/
[6] Nidal Al-Mughrabi , Charlotte Greenfield e Dawoud Abu Alkas, “Israel announces daily pauses in Gaza fighting as aid airdrops begin”, 27 de julho de 2025, Reuters – https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-announces-daily-pauses-gaza-fighting-aid-airdrops-begin-2025-07-27/
[7] Sarah Harrison, “Pressure Mounts in U.S. Congress for Answers from Gaza Humanitarian Foundation, Crisis Group International” , 18 de julho de 2025 – https://www.crisisgroup.org/united-states-israelpalestine/pressure-mounts-us-congress-answers-gaza-humanitarian-foundation.
[8] Médico Sem Fronteira, “Gaza: esquema israelo-americano é massacre disfarçado de ajuda”, 25 de junho a 03 de julho de 2025, https://msf.org.uk/article/gaza-israeli-us-scheme-slaughter-masquerading-aid
[9] OXFAM, Gaza: Israel ameaça proibir grandes organizações de ajuda humanitária à medida que a fome se agrava, 14 de agosto de 2025 – https://www.oxfam.org.uk/media/press-releases/gaza-israel-threatens-to-ban-major-aid-organizations-as-starvation-deepens/
[10] UNRWA – Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras aos Refugiados da Palestina e Oriente Médio -, 14 de agosto de 2025 – https://www.unrwa.org/newsroom/official-statements/unrwa-commissioner-general-gaza-our-warehouses-egypt-and-jordan-are-full
[11] GLOBAL REPORT ON FOOS CRISES, IPC – Integrated Food Security Phase Classification, 2025 . https://www.fsinplatform.org/report/global-report-food-crises-2025/
[12] Associate Press, “Netanyahu diz que ‘não há como’ Israel interromper a guerra em Gaza até que o Hamas seja derrotado” , 13 de maio de 2025. https://apnews.com/article/netanyahu-israel-hamas-gaza-ceasefire-hostages-0b8632e1a01070a7f013c0f9ce0f64b4Associate Press, 13 de maio de 2025.
[13] Da economia de ocupação à economia de genocídio. Relatório do Relator Especial sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967https://www.un.org/ unispa1/doeumentia-hrc-59-23-from-economy-of-occupation-to-economy-of-genocide-report-specia1-rap porteur-francesca-alb..






