Foto: Cartaz em manifestação social contra Bukele, no final de 2021, antes do estado de exceção.
Introdução
Nayib Bukele representa um processo típico de bonapartização latino-americana, no período histórico no qual não existem contradições estruturais decisivas entre as burguesias locais (seus partidos e governos) e o projeto imperialista estadunidense, em período de crise prolongada e perda da hegemonia internacional.
Ao lado da imagem de “combatente” do crime, Bukele constrói a imagem de modernizador da economia salvadorenha – associada à tecnologia, às criptomoedas e aos ativos digitais, ao turismo internacional e à atração de investimentos. Embora mantenha a imagem de modernizador, o que vemos em seus governos é uma “máquina de corrupção” articulada em uma rede que envolvem irmãos e outros parentes, colaboradores próximos e membros do seu gabinete, que desviam verbas públicas, concedem contratos de obras a favorecidos e direcionam seletivamente compras de alimentos e remédios[1]. O contraponto dessa história resume-se ao crescente endividamento junto ao FMI com seus programas de ajuste fiscal e nos dados sociais e laborais que indicam um processo simultâneo de aprofundamento da miséria, informalidade e vulnerabilidade social.
Em meio às sucessivas reedições de estados de exceção, os encarceramentos arbitrários, as mortes em cárcere e as perseguições aos opositores, com a justificativa de combate ao crime, indicam também que não existe nada de modernizador nesse governo. Aliás, ele também se auto representa como o “ditador mais descolado do mundo”[2]O país tem a mais alta porcentagem de encarceramento no mundo: 1% de sua população está encarcerada. Ao mesmo tempo se agravam os índices sociais sobre condições de vida: trabalho e alimentação. Atualmente, 70% da força de trabalho encontra-se na informalidade, o mais alto da região. O estrangulamento da economia, com diversas renegociações junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e o estabelecimento de planos de austeridade indicam também os limites desse governo.
O processo de bonapartização e o Estado de exceção
Bukele realizou um percurso político que se originou na FMLN (Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional), elegendo-se prefeito da cidade de Nuevo Cuscatlán (2012-2015) e, posteriormente, na capital San Salvador (2015-2018)[3], sendo denunciado em investigações jornalísticas por lavagem de dinheiro e fraudes em seus mandatos. Foi expulso do partido em 2017, tentou fundar seu próprio partido sem êxito e então candidatou-se à presidência do país pela GANA (Grande Aliança pela Unidade Nacional), quando em fevereiro de 2019 elegeu-se em primeiro turno com 53% dos votos. Na ocasião, Bukele se autoproclamou o “ditador mais descolado do mundo”[4]. Em fevereiro de 2021, já com seu próprio partido, Nuevas Ideas, em aliança com a GANA, obteve mais de 2/3 das cadeiras da Assembleia Nacional[5]. O “combate ao crime organizado” e à corrupção foram o mote principal, a justificativa política que Bukele e seu grupo político utilizaram para se consolidarem no poder. Em 2024, elegeu-se para um segundo mandato presidencial, com cerca de 87% dos votos, em meio às inúmeras denúncias de prisões arbitrárias e violação de direitos humanos.
Em fevereiro de 2020, oito meses após sua posse, Bukele ordenou que o Exército ocupasse a Assembleia Legislativa e ameaçou dissolvê-la para forçar a aprovação de seu plano de gastos militares, chamado Plano de Controle Territorial, que envolvia também a reestruturação das forças armadas[6]. Teve o apoio do ministro da Defesa, René Merino Monroy[7], e do diretor de polícia, Mauricio Arriaza Chicas[8]. Na ocasião, somente 22 dos 84 parlamentares compareceram, o que impediu a votação.
Já com maioria no Congresso, em maio de 2021, destituiu cinco membros da Suprema Corte e o procurador-geral do país, substituindo-os por próximos ao seu círculo político. Além disso, aprovou uma reforma que determinava a demissão de todos os juízes com mais de 60 anos. Em junho de 2021, ele teve aprovada a possibilidade de recandidatar-se.
Na sequência, em setembro de 2021, Bukele aprovou no Congresso a criptomoeda Bitcoin como moeda corrente ao lado do dólar, que teria como objetivo a “inclusão financeira”, o investimento e o desenvolvimento econômico. Ele anunciou a mudança em mensagem reproduzida em conferência sobre bitcoin em Miami: “Isso vai gerar empregos e ajudar a proporcionar inclusão financeira a milhares de pessoas fora da economia formal, e a médio e longo prazo esperamos que essa pequena decisão possa nos ajudar a impulsionar a humanidade, pelo menos um pouquinho, na direção certa”.
Contra a nova moeda, cerca de 15 mil pessoas foram para as ruas de San Salvador (Capital) protestar contra o bitcoin e o acelerado processo de bonapartização do regime político[9]. Foi a manifestação mais massiva desde a eleição de Bukele, em 2019. Teria sido resultado de um processo de dois anos: as reformas constitucionais, entre as quais a de recandidatura presidencial; revelações sobre o pacto entre Bukele e as gangues para “pacificar” o país[10]; a intenção de dobrar o tamanho do Exército; e finalmente a imposição da nova moeda. A manifestação reunia distintos setores, desde estudantes, feministas e sindicalistas até integrantes dos partidos da ordem, FMLN e Arena. Como registrado em reportagens jornalísticas, grande parte dos manifestantes nas entrevistas não deu seu nome, e a maioria marchava com o rosto coberto por máscaras, óculos de sol e boné por receio de serem fotografados ou gravados por drones que sobrevoavam o protesto.
Estado de exceção como dique para conter os protestos sociais
Em janeiro de 2026, o governo salvadorenho completou a 46ª renovação dos atos de exceção, que são votados na Assembleia Legislativa Nacional. As seguidas reformas constitucionais – seis ocorridas no ano passado - vão também configurando as características desse processo: concentração extrema de poder no Executivo, esvaziamento de mediações institucionais, subordinação e controle do Judiciário e do Legislativo, e uso direto do aparato repressivo como base de sustentação política em ataques às oposições. Em junho de 2025, Bukele avançou ainda mais na sua consolidação ditatorial. A Assembleia Nacional aprovou reformas constitucionais que permitem ao presidente reeleições sucessivas, além de ampliar o mandato presidencial para seis anos.
O estado de exceção é o eixo político central que estrutura o regime ditatorial de Nayib Bukele, desde março de 2022. A medida foi justificada como necessária em decorrência dos elevação nos índices de violência naquele período que decorriam das gangues salvadorenhas que são classificadas no país como organizações criminosas terroristas. No entanto, podemos entender que o estado de exceção surge em razão das crescentes críticas ao governo, e o grande protesto social daquele ano contra Bukele que estaria indicando uma retomada das mobilizações sociais no país.
Recentemente, o presidente salvadorenho fez a seguinte afirmação sobre a redução da violência no país: “um milagre de deus”. Se é assim, por que então continuam a se reiterar os estados emergenciais? Evidentemente, o discurso oficial omite que existe um regime de exceção com prisões arbitrárias e violações dos direitos humanos.
Com o estado de exceção, o governo suspendeu três garantias constitucionais básicas: direito à defesa, período máximo de detenção e sigilo das comunicações. Tem servido como pretexto para as prisões em massa no país. A repressão estatal é apresentada oficialmente como voltada para os integrantes de gangues, mas na realidade atinge as oposições críticas ao governo: sindicalistas, jornalistas e defensores de direitos humanos.
Bukele trata o estado de exceção como “plano” desdobrado do Plano de Controle Territorial, que teria se transformado em “emergencial” quando “as gangues nos forçaram a lançar uma guerra direta, frontal e imediata contra elas, foi um plano de emergência”. Em entrevista, Bukele deixa claro que ocorreu uma intencionalidade nesse processo, porque antes de decretar o estado de emergência, seu governo havia investido em armamentos, controle das prisões e bloqueios telefônicos: “já estávamos 70% preparados”. E o que é mais interessante: “foi baseado em quase três anos de trabalho já realizado”: “O Exército já havia sido duplicado, as armas já haviam sido compradas, havia um [veículo blindado] Humvee para todo o país, agora há 70, havia 12 mil soldados, dos quais 3 mil podiam ser designados para a segurança pública, agora temos 24 mil e 15 mil podem ser designados para a segurança pública”[11].
A realidade, no entanto, apontava para outras dimensões encobertas nas administrações de Bukele, em sua relação com as gangues criminosas salvadorenhas.
O jornal El Faro, em setembro de 2020, obteve cópias de documentos prisionais de encontros e relatórios secretos entre autoridades governamentais e líderes de gangue desde 2019. Esses documentos eram registrados pelo próprio sistema prisional, detalhando as deliberações saídas desses encontros. O diretor do sistema prisional nacional e de outros órgãos se encontravam com os líderes de gangues encarcerados, nos presídios de Zacatecoluca e Izalco[12]. Em troca de conter as taxas de homicídios e, inclusive, de apoio eleitoral, as concessões às gangues iam de pequenos privilégios cotidianos e – permitir a venda de vários alimentos nos blocos de cela, por exemplo – até promessas de suavizar o regime de segurança máxima, revogar leis e beneficiar membros das gangues, caso o governo se tornasse maioria na Assembleia Legislativa nas eleições de fevereiro de 2021. Diz o jornal El Faro: “Uma investigação liderada pelo ex-Procurador-Geral Raúl Melara[13] descobriu que o governo de Nayib Bukele manteve negociações em prisões de segurança máxima em 2020 com as três principais gangues de El Salvador: a Mara Salvatrucha 13, a Barrio 18 Revolucionarios e a Barrio 18 Surños, organizações criminosas classificadas como terroristas pela lei salvadorenha”[14]. Em razão desses acordos, segundo o jornal, entre janeiro e maio de 2020 as taxas de homicídio baixaram para 519. No mesmo período do ano anterior tinham chegado a 1.345 homicídios.
A prática de Bukele, que se autorepresenta como “sábio” (“rei filósofo”) e modernizador, seguiu a mesma conduta dos políticos dos partidos da ordem FMLN e ARENA). El Faro, em 2012, denunciava o governo Funes (FMLN) que também havia conduzido negociações secretas com as gangues criminosas para abaixar as taxas de homicídio e obter apoio eleitoral nas eleições presidenciais de 2014. Com a ruptura do acordo, o ano de 2015 tornou-se o mais violento registrado no período, chegando a 103 homicídios por 100 mil habitantes.
Não há indícios públicos de que Bukele tenha rompido com os acordos com os grupos criminosos. Ele sempre nega publicamente qualquer acordo. No entanto, as gangues são funcionais para o governo, uma vez que são mobilizadas como justificativa para manutenção do estado de exceção.
Bukele publiciza sua concepção de segurança pública atribuindo-lhe papel estratégico. A política de encarceramento e a repressão militar generalizada são justificadas pelo discurso da “guerra contra as gangues”; na prática, no entanto, funcionam como mecanismo de controle social e político ampliado. Atingem amplos setores populares, classe trabalhadora, majoritariamente informal, juventude periférica e opositores reais ou potenciais do regime. Também operam como instrumento de propaganda, mobilizando o apoio de amplos setores da classe média urbana, da burguesia e mesmo de setores populares que passam a associar ordem, segurança e crescimento econômico à suspensão de direitos políticos.
Politicamente, o governo Bukele se estrutura em torno de três fatores centrais. As forças repressivas estatais (Forças Armadas, polícia e sistema penitenciário), herdeiras diretas da tradição contra insurgente salvadorenha, treinadas pelos EUA, que nunca foram desmontadas após o chamado “acordo de paz” de 1992. Grupos econômicos nacionais e internacionais beneficiados por flexibilização regulatória, contratos públicos e isenções fiscais. Alinhamento ideológico com a extrema-direita estadunidense, especialmente com o campo trumpista, que legitima internacionalmente o “modelo Bukele”, de encarceramento em massa e desprezo completo por garantias constitucionais básicas e pelos direitos humanos.
Essa arquitetura política e repressiva confirma o caráter bonapartista do regime. O estado de exceção deixa de ser um expediente transitório e passa a estruturar, de forma permanente, as relações entre Estado, classes sociais e repressão. Nesse sentido, Bukele e seu regime político não se sustentam no vazio: eles se ancoram em uma estrutura social que reproduz desigualdades históricas, marcadas pela informalidade, pela precarização do trabalho e pela reprodução da miséria.
O “modelo” Bukele: encarceramento em massa
Nesse contexto político, a população de El Salvador é estimada em 6,3 milhões de habitantes, sendo que cerca de 526 mil vivem em San Salvador (capital)[15]. Após a aprovação do estado de exceção em março de 2022, o país vive um dos mais intensos processos de encarceramento em massa do mundo.
Em março de 2024, a população encarcerada chegou a 109.509 pessoas[16], sendo que 84 mil estão presas sem julgamento, muitas delas sem acusação formal individualizada e sem direito à defesa. Entre esses presos, estão jornalistas, advogados, sindicalistas e defensores de direitos humanos, bem como opositores político-partidários ao regime. Isso significa 1.659 prisioneiros para cada 100 mil habitantes, o maior índice prisional do mundo, em termos proporcionais, superando inclusive países como EUA e China.
Organizações nacionais e internacionais de direitos humanos tem realizado denúncias contínuas sobre as condições do sistema prisional salvadorenho. Nos últimos três anos, foram registradas ao menos 473 mortes em prisões[17], sendo cerca de 50% decorrentes de ações violentas, aproximadamente um terço associado à recusa deliberada de atendimento médico: “Sem terem sido condenadas judicialmente, 94% das pessoas não tinham perfil de integrantes de gangues e morreram sob a custódia do Estado e em total impunidade. O número de mortes pode ultrapassar muito mais de mil, mas há informações que estão sendo ocultadas nos julgamentos em massa”[18].
Trabalho, informalidade e miséria social
O que está na base da violência social, que supre com matéria-prima humana as gangues e grupos criminais, encontra-se enraizado nas condições de miséria social que se reproduzem estruturalmente no país.
De maneira aproximada, podemos verificar alguns índices da economia salvadorenha. Seu setor de maior destaque é o de serviços que atualmente gira em torno de 66% do PIB do país[19], entre os quais destacam-se comércio (14%), atividades imobiliárias (8%), administração pública (8%). O setor industrial representa cerca de 27% do produto interno, concentrado especialmente na manufatura (18%), construção (6%) e estatal (3%). O setor agrícola, pecuária e pesqueiro (6%) encontra-se em declínio.
A força de trabalho salvadorenha gira em torno de 2,89 milhões de pessoas (ocupados e desempregados), o que significa 64,4% da população ativa (empregados ou buscando empregos). Sua distribuição por setor de atividade: comércio (31,1%), agricultura (14,2%), manufatura (13,7%), construção (8,4%), entre outros[20].
El Salvador tem uma taxa de emprego informal urbano próximos a 70%, considerando assalariados informais e “por conta própria/ autônomos”. É uma das taxas mais altas entre os países latino-americanos, muito acima da média regional de 55,6%, de acordo com relatório da CEPAL. Isso significa cerca de 1,94 milhão de pessoas, constituídas por vendedores ambulantes, trabalhadores domésticos, empregos informais em transporte, manufaturas e construção civil e outros. Entre os jovens, cerca de 3 em cada 4 estão em empregos informais. Apenas 25% da população que trabalha está no mercado formal, uma pequena parcela de trabalhadores com contrato e alguma proteção social. Os empregos formais ocupam cerca de 900 mil pessoas.
As remessas familiares de imigrantes salvadorenhos nos EUA para El Salvador continuam sendo um amortecedor social importante para milhões de famílias pobres do país. Em pesquisa de 2023[21], o Banco Central do país destacou que mais de 1,5 milhão de salvadorenhos viviam nos EUA – o que poderia representar estimativa aproximada de 26% da população, de acordo com a ONU -, dos quais 80,9% enviavam regularmente remessas para suas famílias, e cerca de 55,4% trabalhavam na área de construção civil, limpeza e restaurantes. Outra pesquisa da mesma instituição[22] indica que, em 2024, essas remessas significaram 24% do PIB salvadorenho: US$ 8.206,4 milhões. Ainda indica que 49,3% estariam em situação migratória regular. A pesquisa ainda afirma que as questões econômicas são o principal motivo para deixar o país.
As informações do Banco Mundial indicam que a pobreza tem aumentado desde 2019, quando Bukele assumiu o governo, passando de 26,8% para cerca de 30,3% em 2023[23].
Reportagens jornalísticas de campo, realizadas por El Faro, em 2024, apontavam os níveis elevados de insegurança alimentaçar[24]: “quase metade da população sofre de insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa que não comem o suficiente, podem passar dias sem comer nada”. As reportagens registraram comunidades em San Salvador, Tacuba, Ahuachapán, Berlim, Morazán entre outras, nas quais várias dessas comunidades são classificadas como extremamente pobres pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) e pelo Fundo de Investimento Social para o Desenvolvimento Local (FSDL) de El Salvador. Além das inúmeras entrevistas com comunidades pobres da Capital (San Salvador), o jornal também se baseava em levantamentos da Unicef[25].
Ainda, de acordo com El Faro, as principais determinações conjunturais – as reportagens não tratam dos problemas histórico-estruturais – para tal situação humanitária estariam resumidas da seguinte maneira: aumento dos preços de alimentos, quebras de safra devido à crise climática e a falta de subsídios agrícolas. O problema teria se agravado ainda mais a partir do estado de exceção de março de 2022[26]. Milhares de famílias salvadorenhas diminuíram suas rendas, seja porque seus principais provedores foram detidos ou porque a família tinha que dividir o pouco de renda com pacotes de compra para fornecer itens básicos para parentes encarcerados.
O custo de vida se expressa no aumento do preço da cesta básica. Famílias em áreas urbanas, no final de 2022, pagavam até US$ 240,36 por mês para suprir as necessidades básicas de família de quatro pessoas. O salário mínimo variava conforme o setor: US$ 150 para trabalhadores domésticos, US$ 240 (na agricultura) ou US$ 365 (comércio e serviço). Algumas famílias ganham menos ainda. Entre 2013 e final de 2022, o custo da cesta básica subiu 38% nas áreas urbanas e 47,3% nas áreas rurais.
Bukele e o trumpismo
A integração de Nayib Bukele ao trumpismo não é episódica. Trata-se de um alinhamento ideológico progressivamente estrutural desde sua primeira eleição presidencial, em 2019, e aprofundado após sua reeleição em 2024. Essa convergência se manifesta em um conjunto de valores, discursos e práticas políticas que reproduzem, no contexto centro-americano, os elementos centrais do trumpismo estadunidense. Entre esses elementos estão evidenciados: a retórica anti-imigração e a criminalização do deslocamento migratório; a crítica ao “globalismo” e às instituições multilaterais de direitos humanos; a construção do crime organizado como “narcoterrorismo internacional”, justificando medidas de exceção permanentes; a defesa de um Estado forte, punitivo e militarizado; o uso intensivo de redes sociais como canal direto de comunicação.
Em 2023, Marco Rubio, então senador republicano pela Flórida, visitou Bukele em El Salvador e o elogiou por trazer paz ao país. No início de 2024, o salvadorenho foi recebido com ovações em evento do CPAC – Comitê de Ação Política Conservadora, onde enfatizou um discurso com matizes trumpistas. Na posse de seu segundo mandato, Bukele recebeu na cerimônia Javier Milei e Don Jr. – filho de Trump – , que o elogiou em redes sociais: “Parabéns pela sua vitória e pelas suas incríveis conquistas” (…) “E você faz tudo isso sem ter que prender seus oponentes políticos!”. Nessa cerimônia, outras figuras de peso do movimento MAGA estiveram presentes, o que significou um claro sinal de que a extrema-direita estadunidense havia abraçado completamente o “ditador descolado”, ou seja, o “modelo Bukele”[27].
No início de 2025, após a posse de Donald Trump, o secretário de Estado Marco Rubio visitou novamente El Salvador e fez um acordo com Bukele, para a deportação de imigrantes a partir dos EUA. Seriam deportados os imigrantes indocumentados condenados por crime e, também, criminosos cumprindo pena nos EUA, mesmo que fossem cidadãos americanos ou residentes legais, em violação à própria legislação estadunidense. Os EUA pagariam ao governo salvadorenho US$ 4,76 milhões anuais.
Bukele, na ocasião, afirmou: “Oferecemos aos Estados Unidos da América a oportunidade de terceirizar parte de seu sistema prisional. Estamos dispostos a aceitar apenas criminosos condenados (incluindo cidadãos americanos condenados) em nossa megaprisão (CECOT) em troca de uma taxa. A taxa seria relativamente baixa para os EUA, mas significativa para nós, tornando todo o nosso sistema prisional sustentável”[28].
A declaração revela a transformação do encarceramento em mercadoria política e econômica, tornando o sistema prisional “sustentável” financeiramente por meio da repressão exportada.
Marco Rubio, por sua vez, considerou que a proposta seria “um ato de amizade extraordinária”, legitimando politicamente uma prática que desloca para El Salvador responsabilidades jurídicas e políticas que o próprio Estado americano não pode assumir legalmente.
Também foi acordado receber indocumentados de qualquer nacionalidade, inclusive cerca de 300 venezuelanos deportados[29]. Os deportados seriam supostamente integrantes da gangue venezuelana Tren de Aragua, embora muitos não tivessem vínculos com a organização ou graves antecedentes criminais.
O local de encarceramento foi o chamado Centro de Confinamento de Terroristas (CECOT), prisão de segurança máxima inaugurada em 2023, e denunciada internacionalmente por suas condições desumanas de confinamento. Vários dos deportados venezuelanos denunciaram torturas e abusos generalizados na prisão. Ocorreram diversas contestações judiciais contra o governo estadunidense pelas deportações.
O alinhamento político foi reiterado em abril de 2025, quando Trump recebeu o presidente salvadorenho na Casa Branca e reafirmaram a ampliação da cooperação em políticas de imigração e deportação.
O papel geopolítico de Bukele para Trump
Na geopolítica latino-americana, o “ditador descolado” alinha-se diretamente às prioridades da política externa dos EUA sob o trumpismo: contenção da imigração, externalização do controle migratório e combate securitário ao crime transnacional. Nesse sentido, El Salvador passa a operar como extensão do aparato repressivo estadunidense.
As prisões salvadorenhas, particularmente o sistema de encarceramento de segurança máxima, convertem-se em infraestrutura funcional para a política migratória estadunidense, operando como uma forma de terceirização da repressão que desloca custos políticos, jurídicos e humanitários para a periferia.
É necessário considerar outros aspectos nesse alinhamento geopolítico. Em início de novembro de 2025, de acordo com a imprensa estadunidense[30], foram observadas pelo menos três aeronaves militares dos EUA no principal aeroporto de El Salvador , indicando uma ampliação da cooperação militar já existente. Ainda em novembro, os EUA anunciaram a transferência de dois helicópteros para o país, oficialmente com o objetivo de “fortalecer suas contribuições” para os “esforços” de segurança no Haiti.
Ainda em novembro, a Câmara de Comércio bilateral com a Bolívia solicitou ajuda a Bukele para lidar com sua própria crise carcerária[31].
O acordo Escudo das Américas,assinado entre El Salvador e Costa Rica,reforça ainda mais a função geopolítica salvadorenha no “tabuleiro” trumpista. Segundo Bukele, tal acordo visaria “que ambos os países se ajudem mutuamente no combate ao crime”, com troca de informações de inteligência, coordenação de operações conjuntas e desmantelamento de redes criminosas que atuem em ambos os territórios[32]. E segue: “O crime não conhece fronteiras, o crime opera transnacionalmente, é financiado transnacionalmente. O crime funciona como uma única rede coordenada, mas os países não. Portanto, não faz sentido que várias estruturas transnacionais operem em sincronia sem que haja coordenação”[33].
A perspectiva de tal projeto é ampliar sua extensão e aliança para outros governos da região que “queiram acabar com o crime internacional, que assola toda a América Latina”.
Comércio, segurança nacional e acordo “recíproco”
Em novembro último, os Estados Unidos anunciaram que novos acordos de comércio recíproco estavam em curso com El Salvador, Equador, Guatemala e Argentina[34]. O documento divulgado não formaliza tratados comerciais concluídos, mas define o eixo estratégico, as referências e limites políticos que orientarão os acordos finais. Nesse sentido, a declaração “conjunta” opera como um enquadramento estratégico: instrumento de sinalização geopolítica regional, marco programático da política comercial trumpista, mecanismo de pressão sobre os países “parceiros”.
A dimensão que perpassa pelo acordos em curso é a subordinação explícita da política comercial à segurança nacional dos Estados Unidos. Por isso os acordos são apresentados como instrumentos para fortalecer cadeias de suprimentos que ampliem a produção americana, reduzam as suas vulnerabilidades estratégicas e protejam a segurança econômica nacional estadunidense. A lógica comercial convencional desloca-se, assim, para uma lógica geopolítica e securitária, na qual o acesso aos mercados, concessões tarifárias e benefícios comerciais são condicionados ao alinhamento político-ideológico.
Nesse texto, detemo-nos especificamente no caso de El Salvador, visto que constitui o foco do artigo. O projeto de acordo recíproco evidencia, de forma ainda mais nítida, a posição de subordinação do projeto político de Nayib Bukele em relação aos Estados Unidos.
A Declaração Conjunta EUA-El Salvador sobre Comércio Recíproco[35], de 13 de dezembro de 2025, permite compreender os parâmetros gerais dos acordos com países latino-americanos. A declaração não constitui um tratado comercial, mas esboça as suas linhas mestras: antecipa compromissos, fixa as diretrizes obrigatórias e delimita o espaço de negociação. O documento não substitui o CAFTA-DR[36], mas o aprofunda qualitativamente. Desloca o então eixo do livre-comércio para uma orientação bilateral, regulatória e tecnológica subordinada aos Estados Unidos, e em especial adiciona a dimensão de segurança nacional.
O núcleo do documento gira em torno da remoção das barreiras tarifárias e, sobretudo, não tarifárias que afetem as exportações estadunidenses. Isso significa na prática que as exportações estadunidenses para El Salvador estarão praticamente isentas de exigências regulatórias, aprovações administrativas, restrições à venda e outras exigências formais. Os padrões regulatórios salvadorenhos passam, assim, a ser subsumidos aos padrões estadunidenses.
El Salvador aprofunda sua inserção subordinada à esfera imperialista estadunidense ao se comprometer a remover entraves à importação de produtos, serviços e capitais estadunidenses. O país comprometeu-se com a remoção completa das barreiras tarifárias e não tarifárias que ainda incidem sobre as exportações estadunidense.
O documento enfatiza setores de alto valor agregado para os Estados Unidos: produtos farmacêuticos, dispositivos médicos e bens industriais sujeitos a regulação sanitária e técnica. Ao aceitar as certificações e autorizações estadunidenses, El Salvador reduz custos e entraves para as empresas estadunidenses, dificulta concorrência de outros países e absorve a hierarquia regulatória estadunidense.
No caso da agricultura e alimentos, os impactos são graves. Trata-se de um setor em retração contínua na economia salvadorenha, e o acordo consolida essa tendência. O país comprometeu-se a não restringir a entrada de produtos agrícolas estadunidenses, aceita certificações sanitárias e regulatórias estadunidenses, e garante acesso completo aos exportadores estadunidenses, especialmente nos segmentos de carnes e laticínios. Os desdobramentos previsíveis incluem a desestruturação da produção agrícola local, com impactos negativos sobre produtores domésticos, e a secundarização dos cuidados higiênicos e sanitários com muitas importações alimentícias estadunidenses. Em outras palavras, é previsível o aprofundamento da dependência alimentar, a pressão sobre produtores locais e completa desestruturação das políticas agrícolas e políticas sanitárias nacionais.
No setor de serviços, economia digital e big techs, o acordo reforça o projeto de “modernização” econômica proposta pelo governo Bukele. Nesse projeto, como falamos em outro tópico, o país se posiciona como um hub financeiro-digital, inclusive no campo da criptomoeda, ancorado no capital e na infraestrutura tecnológica dos Estados Unidos. É a completa isenção fiscal e abertura irrestrita. O país compromete-se a dispensar impostos sobre serviços digitais, assegurando abertura irrestrita ao comércio digital de empresas dos EUA. Isso significa a isenção fiscal para plataformas digitais, big techs e serviços financeiros digitais, em consonância com o modelo “cripto/digital-friendly”. Ocorre uma blindagem completa para as plataformas digitais estadunidenses, consolidando o poder das big techs e limitando políticas de tributação digital.
Na pauta de trabalho, meio ambiente, o documento estabelece a proibição de importação de bens produzidos com “trabalho forçado”, compromissos de proteção ambiental, combate à pesca ilegal, à exploração madeireira e ao comércio de animais silvestres, além da aceitação do Acordo da OMC sobre Subsídios à Pesca. Na realidade, essa pauta é cosmética, não é aplicada aos aliados estratégicos, mas sim é usada seletivamente contra adversários. Na prática, não atinge as empresas estadunidenses, nem protege os trabalhadores locais.
É na articulação entre comércio, segurança e política externa que se explicita o verdadeiro eixo do acordo. O documento estabelece compromisso de fortalecer a cooperação econômica e de segurança nacional para lidar com “políticas não mercantis” de outros países. O comércio nitidamente aparece integrado à estratégia de segurança dos Estados Unidos, pois associa cadeias de suprimento à segurança nacional, legitimando ações conjuntas contra concorrentes estratégicos.
Em contrapartida, os EUA concederão ao país tratamento tarifário de “Nação Mais Favorecida” (NMF) a “certos” produtos originários que não podem ser produzidos em grande escala nos EUA, mas somente se os “parceiros” seguirem as condições impostas sobre geopolítica regional e mantenham a flexibilização comercial para as exportações estadunidenses. No caso salvadorenho serão eliminadas “tarifas recíprocas de certos produtos, como têxteis e vestuários” , que será “um grande benefício para a produção têxtil dos EUA”. As taxas de 10% e 15% seguem para a maioria dos produtos, sendo que os EUA têm o “direito” de impor tarifas adicionais por motivos de “segurança nacional” ou práticas comerciais consideradas “desleais”.
Como síntese, os desdobramentos do futuro acordo são relativamente nítidos. Aumentará a dependência comercial, acompanhado pela flexibilização regulatória em favor das importações e investimentos estadunidenses, impedindo a entrada de países concorrentes, especialmente China.
Desta maneira, esse movimento converge com o projeto político de Bukele: atração de capital estrangeiro, redução de regulações e alinhamento explícito ao eixo trumpista.
Quem sustenta o regime de Bukele?
Nayib Bukele estrutura-se em uma base política e econômica articulada principalmente aos setores de tecnologia, criptomoeda, turismo, construção e serviços. Orienta-se, portanto, para “investimentos” estrangeiros, o que significa, na realidade, grandes isenções fiscais e investimentos públicos em infraestrutura.
A tentativa é posicionar El Salvador como centro regional de tecnologia digital. Contratos com grandes empresas internacionais para infraestrutura digital ou parcerias de plataforma. Para isso, aprovou projetos de lei para reduzir ou eliminar impostos sobre software, hardware e desenvolvimento tecnológico, inclusive sobre programação e inteligência artificial. Bukele em 2023 assim falava dessa flexibilização: “Na próxima semana, enviarei um projeto de lei ao Congresso para eliminar todos os impostos (renda, propriedade, ganhos de capital e tarifas de importação) sobre inovações tecnológicas, como programação de software, codificação, aplicativos e desenvolvimento em IA, bem como fabricação de hardware e comunicação”.
Por outro lado, enfatiza investimentos em infraestrutura turística internacional, especialmente os ligados ao lifestyle – turismo que articula consumo, cultura e tecnologia, ao exemplo de surf, hospedagens e eventos internacionais para públicos globais – e ao cripto-turismo, ligado a eventos, conferências, serviços financeiros, combinando viagens e “economia digital”.
Os investimentos em obras públicas e modernização urbana estão orientados para tais objetivos. Eles implicam contratos e lucros para grandes grupos de construção (locais e internacionais), associados a investimentos públicos. São investimentos para construção de aeroportos, portos, pontes e estradas que facilitem a conexão entre regiões turísticas e projetos logísticos – muitos relacionados a zonas especiais ou projetos como Bitcoin City, que exige infraestrutura de conectividade.
Nesses grandes empreendimentos públicos, os projetos de construção são executados por grandes construtoras ligadas à rede de empresas nacionais e transnacionais – beneficiando grupos econômicos próximos ao governo. Portanto, envolvem grandes empreiteiras, empresas de engenharia e fornecedores de materiais que ganham contratos estatais.
O endividamento público e o FMI
Os planos divulgados para a Bitcoin City, paraíso fiscal para criptomoedas alimentado por energia geotérmica, não avançaram e os investimentos esperados não vieram. Enquanto isso, a dívida pública de El Salvador aumentou significativamente no governo de Bukele para mais de US$ 30 bilhões, o que significa 84% do produto interno bruto do país. Isso levou a renegociações da dívida com o FMI, implicando um “orçamento austero”, o que significou redução ainda maior dos já escassos benefícios sociais.
Bukele encontra-se completamente subordinado aos mecanismos do FMI[37]. Renegocia dívidas com títulos públicos e se afunda mais em empréstimos futuros. Subordina-se às regras da Instituição. Ainda consegue acordos com a instituição, graças às relações que mantém com o trumpismo. De acordo com o Banco Mundial[38], os “desequilíbrios fiscais e externos” levaram o governo a realizar “três recompras de dívida soberana entre 2022 e 2024”, que ajudaram a aliviar as pressões de financiamento de curto prazo. Essas renegociações foram “seguidas pela aprovação de um orçamento austero para 2025 e de um programa de financiamento ampliado de 40 meses com o FMI em fevereiro de 2025”, visando “apoiar a consolidação fiscal, fortalecer a estabilidade financeira e melhorar a governança e transparência”.
Considerações finais
O caso de Nayib Bukele não pode ser entendido como uma anomalia política, desvio autoritário isolado ou um simples produto de lideranças personalistas em contexto de crise. Ao contrário, o regime político salvadorenho expressa uma maneira específica de reorganização do poder político e econômico na periferia do capitalismo contemporâneo. Articula bonapartismo, estado de exceção permanente e maior subordinação geopolítica aos EUA, no período em que este em crise estrutural avança com enorme voracidade sobre os povos latino-americanos.
A consolidação de um regime de exceção contínuo, legitimado pelo discurso da “guerra contra o crime”, permitiu a Bukele concentrar poderes no Executivo, neutralizar mediações institucionais , subordinar o Judiciário e o Legislativo e estruturar um sistema de repressão massiva baseado no encarceramento em larga escala. Longe de representar um simples mecanismo de segurança pública, o mecanismo repressivo funciona como instrumento de controle social amplo, dirigido sobretudo contra a classe trabalhadora (informal e formal), a juventude pobre e os setores críticos do regime.
Esse processo não ocorre no vazio. Ele se ancora em uma estrutura social marcada por informalidade extrema, precarização do trabalho, miséria persistente e insegurança alimentar crescente, agravadas por políticas de austeridade e pela dependência das remessas financeiras de migrantes para suas famílias salvadorenhas. O encarceramente em massa, nesse sentido, opera como uma forma de gestão penal da crise social, convertendo desigualdades histórico-estruturais em problema policial e militar.
No plano econômico, o chamado “modelo Bukele” combina autoritarismo político com máxima liberalização, envolvendo isenções fiscais extensas, flexibilização regulatória e direcionamento de recursos públicos para setores empresariais – tecnologia digital, criptomoedas, turismo e construção – que se integram ao capital transnacional. O projeto de modernização do presidente “sábio” convive, no entanto, com endividamento crescente, subordinação ao FMI e deterioração das condições de vida da maioria da população.
Nesse contexto se encaixa perfeitamente o acordo de comércio “recíproco” entre os Estados Unidos e El Salvador. Longe de representar um instrumento de desenvolvimento, a Declaração Conjunta expõe com todas as letras a consolidação de um modelo comercial securitizado, no qual a política comercial é explicitamente subordinada à segurança nacional estadunidense. A remoção de barreiras tarifárias e, sobretudo, não tarifárias, a incorporação de padrões regulatórios estadunidenses, a abertura irrestrita aos espaços digitais e a blindagem das big techs aprofundam a dependência econômica, alimentar e tecnológica de El Salvador, ao mesmo tempo em que bloqueiam a entrada de conconrrentes estratégicos, especialmente a China.
O alinhamento de Bukele ao trumpismo não é episódico, mas estrutural. Ele se manifesta na retórica anti-imigração, na criminalização da mobilidade humana, na militarização da política social, no desprezo por direitos humanos e no uso instrumental das redes sociais. Mais do que afinidade ideológica, trata-se de uma função geopolítica concreta. El Salvador converte-se em extensão do aparato repressivo estadunidense, seja pela terceirização do encarceramento, seja pela externalização do controle migratório, seja pela ampliação da cooperação militar e securitária.
Neste sentido, Bukele emerge como laboratório e vitrine de um modelo exportável de autoritarismo neoliberal periférico: um regime que combina repressão massiva, liberalização econômica subordinada e alinhamento ao imperialismo, apresentado como solução eficiente para o “caos”, o “crime” e a “ingovernabilidade”. A naturalização desse modelo sinaliza riscos profundos para a América Latina, onde a normalização do estado de exceção, a securitização da política social e a integração dependente ao imperialismo podem se tornar recorrentes às crises sociais e econômicas.
Enfim, o “ditador mais descolado do mundo” não representa uma ruptura com a ordem ou solução para a miséria social, mas uma das formas mais cruas que o capital imperialista tende a se utilizar não somente na periferia do sistema, como também no seu âmago. Reforça somente uma premissa inegociável: diante da contínua e cada vez mais profunda barbárie humana, somente o socialismo apresenta-se como solução.
Notas
[1] EL FARO, O método Bukele para saquear o Estado [El método Bukele para saquear el estado], 01 de agosto de 2025. https://beta.elfaro.net/editoriales/el-metodo-bukele-para-saquear-el-estado
[2] Mat Youkee, Nayib Bukele se autodenomina o “ditador mais descolado do mundo” – mas será que ele está brincando? [Nayib Bukele calls himself the ‘world’s coolest dictator’ – but is he joking?], The Guardian, 26 de setembro de 2021. https://www.theguardian.com/world/2021/sep/26/naybib-bukele-el-salvador-president-coolest-dictator
[3] Nelson Renteria e Noe Torres, Presidente eleito de El Salvador, rejeitado pelo partido governante, trilhou seu próprio caminha, Reuters, 05 de fevereiro de 2019. https://www.reuters.com/article/world/el-salvadors-incoming-president-shunned-by-ruling-party-forged-own-path-idUSKCN1PU0B4/
[4] The Guardian, Temores sobre a democracia em El Salvador após presidente se autoproclamar o ‘ditador mais tranquilo’, 21 de setembro de 2021. https://www.theguardian.com/world/2021/sep/21/fears-for-democracy-in-el-salvador-after-president-claims-to-be-coolest-dictator
[5] Nesse artigo, por problema de espaço, não me deterei nessa trajetória inicial de Bukele e, como ao longo do processo, foi assumindo uma perspectiva ultra-direitista, antes de chegar à Presidência de El Salvador.
[6] Carlos Martinez, ““Agora acho que está muito claro quem tem o controle da situação.”[ “Ahora creo que está muy claro quién tiene el control de la situación”], 10 de fevereiro de 2020. https://elfaro.net/es/202002/el_salvador/24006/%E2%80%9CAhora-creo-que-est%C3%A1-muy-claro-qui%C3%A9n-tiene-el-control-de-la-situaci%C3%B3n%E2%80%9D.htm
[7] Monroy é o responsável pela estratégia de combate ao crime e as gangues de rua de El Salvador, com o Plano de Controle Territorial.
[8] Nelson Renteria, Apoiado por soldados, o presidente de El Salvador ocupa brevemente o Congresso, Reuters, 10 de fevereiro de 2020. https://www.reuters.com/article/us-elsalvador-politics/backed-by-soldiers-el-salvadors-president-briefly-occupies-congress-idUSKBN2030SI/
[9] Jacobo García, Bukele enfrenta seu primeiro protesto em massa e acusa a comunidade internacional de financiar a oposição, El País, 15 de setembro de 2021. https://brasil.elpais.com/internacional/2021-09-16/nayib-bukele-enfrenta-seu-primeiro-protesto-em-massa-contra-a-escalada-autoritaria-em-el-salvador.html
[10] Carlos Martínez, Óscar Martínez e Víctor Peña, Confissões de Charli: Uma entrevista com um líder de gangue que fez um pacto com o governo Bukele, El Faro, 01 de maio de 2025. https://beta.elfaro.net/titulares/las-confesiones-de-charli-entrevista-con-un-lider-pandillero-que-pacto-con-el-gobierno-de-bukele
[11] El Mundo, Buhele: ‘Quando as gangues nos forçaram a declarar guerra direta, foi um plano de emergência, 30 de dezembro de 2025. https://diario.elmundo.sv/politica/bukele-cuando-las-pandillas-nos-obligaron-a-lanzar-una-guerra-directa-fue-un-plan-de-emergencia#google_vignette
[12] As cópias dos registros encontram-se na reportagem de El Faro, de 06 de setembro de 2020: Carlos Martínez, Óscar Martínez, Sergio Arauz e Efren Lemus, Bukele tem negociado com a MS-13 para uma redução nos homicídios e apoio eleitoral [Bukele Has Been Negotiating with MS-13 for a Reduction in Homicides and Electoral Support]. https://elfaro.net/en/202009/el_salvador/24785/Bukele-Spent-A-Year-Negotiating-with-MS-13-for-a-Reduction-in-Homicides-and-Electoral-Support.htm
[13] Com a maioria conquistada pelo partido Nuevas Ideas, nas legislativas de fevereiro de 2021, Bukele destituiu o Procurador-Geral Melera, em seu lugar colocando aliado político.
[14] Carlos Martínez, Gabriela Cáceres e Óscar Martínez, Investigação criminal concluiu que a administração Bukele ocultou provas de negociações com gangues [Criminal Investigation Found the Bukele Administration Hid Evidence of Negotiations with Gangs], El Faro, 23 de agosto de 2021. https://elfaro.net/en/202108/el_salvador/25670/Criminal-Investigation-Found-the-Bukele-Administration-Hid-Evidence-of-Negotiations-with-Gangs.htm
[15] https://www.worldometers.info/gdp/el-salvador-gdp/
[16] WPB World Prision Brief, El Salvador, Dados. https://www.prisonstudies.org/country/el-salvador
[17] Relatório da ONG Socorro Jurídico Humanitário, em 24 de dezembro de 2025.
[18] Relatório da ONG Socorro Jurídico Humanitário, em 24 de dezembro de 2025:
[19] Trading Economics, Taxa de crescimento anual do PIB de El Salvador (1991-2025). https://pt.tradingeconomics.com/el-salvador/gdp-growth-annual#:~:text=O%20setor%20mais%20importante%20da,educa%C3%A7%C3%A3o%20(5%20por%20cento).
[20] CEPAL, Cepalstat – Portal de datos y publicaciones estadísticas, El Salvador: perfil nacional social-demográfico. https://statistics.cepal.org/portal/cepalstat/perfil-nacional.html?theme=1&country=slv&lang=es
[21] Uveli Alemán, Mais da metade dos salvadorenhos nos EUA que enviam remessas trabalham na construção civil, limpeza e em restaurantes, El Mundo, 02 de janeiro de 2026. https://diario.elmundo.sv/economia/mas-de-la-mitad-de-los-salvadorenos-en-ee-uu-que-envian-remesas-trabaja-en-construccion-limpieza-y-restaurantes
[22] Uveli Alemán, Quatro em cada cinco salvadorenhos nos EUA enviam remessas para suas famílias, El Mundo, 02 de janeiro de 2026. https://redaccion.elmundo.sv/economia/cuatro-de-cada-cinco-salvadorenos-en-ee-uu-envian-remesas-a-sus-familiares/
[23] BANCO MUNDIAL, El Salvador, 2023. https://www.worldbank.org/ext/en/country/elsalvador?utm_source=chatgpt.com
[24] Júlia Gavarrete, Quase um milhão de salvadorenhos à beira da fome [El Salvador com hambre], El Faro, 19 de janeiro de 2024. https://especiales.elfaro.net/en/hunger.
[25] Unicef, O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo em 2023. https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/f1ee0c49-04e7-43df-9b83-6820f4f37ca9/content/state-food-security-and-nutrition-2023/annexes1_a.html
[26] Júlia Gavarrete, Quase um milhão de salvadorenhos à beira da fome [El Salvador com hambre], El Faro, 19 de janeiro de 2024. https://especiales.elfaro.net/en/hunger.
[27] Juan David Rojas, O modelo Bukele e o futuro de El Salvador, American Affairs, 2024, vol. III, nº2. https://americanaffairsjournal.org/2024/05/the-bukele-model-and-the-future-of-el-salvador/
[28] Nayib Bukele, X, 03 de fevereiro de 2025. https://x.com/nayibbukele/status/1886606794614587573
[29] Annie Correal, Presidente de El Salvador oferece-se para aceitar criminosos dos EUA mediante pagamento[El Salvador’s President Offers to Accept Criminals From U.S. for a Fee], The New York Times, 04 de fevereiro de 2025. https://www.nytimes.com/2025/02/04/us/politics/el-salvador-prisons-marco-rubio.html
[30] O GLOBO, EUA enviam aeronaves de ataque para El Salvador em meio a reforço da presença militar no Caribe e tensões com a Venezuela, 07 de novembro de 2025. https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/11/07/eua-enviam-aeronaves-de-ataque-para-el-salvador-em-meio-a-reforco-da-presenca-militar-no-caribe-e-tensoes-com-a-venezuela.ghtml
[32] Jessica Guzmán, O que é o ‘Escudo das Américas’? O acordo assinado entre El Salvador e Costa Rica, El Mundo, 12 de dezembro de 2025. https://diario.elmundo.sv/politica/de-que-se-trata-el-escudo-de-las-americas-el-convenio-firmado-entre-el-salvador-y-costa-rica
[33] Naybe Bukele. El Mundo, 11 de dezembro de 2025.
[34] Casa Branca, Ficha informativa: O presidente Donald J. Trump anuncia acordos comerciais históricos com parceiros comerciais do Hemisfério Ocidental [Fact Sheet: President Donald J. Trump Announces Historic Trade Deals with Western Hemisphere Trading Partners], 13 de novembro de 2025. https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/11/fact-sheet-president-donald-j-trump-announces-historic-trade-deals-with-western-hemisphere-trading-partners/#:~:text=THE%20PROSPEROUS%20PATH%20FORWARD%3A%20Today’s,chains%20in%20the%20Western%20Hemisphere.
[35] Casa Branca, Declaração conjunta sobre o quadro para o acordo Estados Unidos-El Salvador sobre comércio recíproco [Joint statement on framework for United States- El Salvador agrément on reciprocal trade], 13 de novembro de 2025. https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/2025/11/joint-statement-on-framework-for-united-states-el-salvador-agreement-on-reciprocal-trade/
[36] Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos, América Central e República Dominicana (CAFTA-DR). Em vigor desde 2006, envolveu Estados Unidos, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e República Dominicana. Esse acordo não significou industrialização na região, pelo conmtrário, aprofundou a especialização primária e as maquiladoras. Na ocasião já aprofundou a dependência às importações estadunidenses, os direitos de investidores e multinacionais e limitou as políticas industriais, agrícolas e regulatórias.
[37] Lisandro Abrego, O acordo com o FMI tornará a dívida pública de El Salvador sustentável [¿El acuerdo con el FMI hará sostenible la deuda pública de El Salvador?], El Faro, 26 de março de 2025. https://beta.elfaro.net/opinion/el-acuerdo-con-el-fmi-hara-sostenible-la-deuda-publica-de-el-salvador
[38] BANCO MUNDIAL. El Salvador. Visão Geral.






