A linguagem, sistema de signos sociais, constitui-se como meio de comunicação e mediação central na articulação (dos signos) para o pensamento. Nesse sentido, encontra-se na dinâmica fundamental para a formação da consciência (humana, certamente). As relações sociais são a gênese inicial do processo de desenvolvimento da linguagem. Desde seu início, a linguagem desenvolve-se imbricada nas contradições materiais e ideologias (valores, justificativas e explicações) sobre a vida material, originadas historicamente nas relações sociais – ações humanas que se estruturam em padrões predominantes de comportamentos sociais no sentido de produzir e reproduzir os grupos humanos, as classes sociais e, enfim, as sociedades (e os modos de produção).
Para Bakhtin[1], o signo é determinado por sua natureza social e marcado ideologicamente: “Tudo o que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia”[2]. Como produto ideológico, temos o conhecimento científico, a literatura, a religião, a moral… Imbricado (misturado) na materialidade tecnológica (física) dos instrumentos e nos objetos imediatos de consumo para a sobrevivência humana encontra-se um universo particular: “o universo dos signos”. Um corpo físico vale por si próprio, não significando além de sua própria natureza. No entanto, o “corpo físico” também é percebido como signo, pois ao se converter em representação o objeto físico, sem deixar de fazer parte da realidade material, passa a refletir e a refratar, em certa medida, uma outra realidade.
“Todo instrumento de produção pode, da mesma forma, revestir-se de um sentido ideológico: os instrumentos utilizados pelo homem pré-histórico eram revestidos de representações simbólicas e de ornamentos, isto é, de signos. Nem por isso o instrumento, assim tratado, torna-se ele próprio um signo”[3].
O signo não apenas reflete, mas também é um fragmento material da realidade, pois retém uma dimensão material – som, massa física, cor, movimento do corpo etc. Por isso, a realidade do signo é objetiva; ele é uma característica do mundo exterior. O signo e seus efeitos – as ações e novos signos gerados no meio social – aparecem na experiência exterior. No entanto, como bem diz Bakthin, não é a própria realidade.
“A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais. Os signos são o alimento da consciência individual, uma matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica e suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada. A imagem, a palavra, o gesto significativo… fora desse material, há apenas o simples ato fisiológico, não esclarecido pela consciência, desprovido do sentido que os sinais lhe conferem”[4]
Comunicação e contradições sociais
Por meio da comunicação verbal, que é inseparável de outras formas de comunicação, as pessoas refletem e refratam conflitos e contradições sociais. A realidade social, refletida no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata. O que determina essa refração do ser social no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma “comunidade semiótica”, ou seja, uma luta de classes. As classes sociais servem-se de um mesmo código de comunicação, “de uma só e mesma língua” (comunidade semiótica), de maneira que em todo signo confrontam-se índices de valor contraditórios. Sendo assim:
“O signo se torna uma arena onde se desenvolve uma luta de classes. Esta plurivalência social do signo ideológico é um traço de maior importância. Na verdade, é este cruzamento de índices de valor que torna o sinal vivo e móvel, capaz de evoluir. O signo, se subtraído às tensões da luta social, se posto à margem da luta de classes, irá infalivelmente debilitar-se, degenerar em alegoria, tornar-se-á objeto de estudos dos filólogos e não será mais um instrumento racional e vivo para uma sociedade. A memória da história da humanidade está repleta de signos ideológicos defuntos, incapazes de constituir uma arena para o confronto dos valores sociais vivos.”[5]

Aquilo mesmo que torna o signo ideológico vivo e sonoro faz dele um instrumento de refração e de deformação do ser social. A classe dominante tende a conferir ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, a fim de abafar ou ocultar a luta dos índices sociais de valor que aí se travam, tornando o signo monovalente.
Como verificamos anteriormente, para Bakhtin a linguagem é consciência prática e, como tal, encontra-se saturada por toda atividade social, inclusive a atividade produtiva. A linguagem é a articulação dessa experiência ativa e em transformação; uma presença social e dinâmica no mundo. Bakhtin trabalhou com as posições da consciência como social, mas que deveria ser compreendida em um processo dialético, uma vez que ela, em termos práticos, opera na transformação dos seres humanos. Nesse sentido, a consciência não deriva diretamente da natureza.
A palavra como signo da comunicação
Bakhtin compreende a palavra como signo da comunicação. Considera a palavra como ideológica: “a palavra é o modo mais puro e sensível de relação social”. É o lugar privilegiado para a manifestação da ideologia. Como signo ideológico por excelência, a palavra retrata as diferentes formas sociais de significar a realidade, de acordo com as vozes e pontos de vista daqueles que a empregam.
O caráter histórico e social da palavra, como um campo de expressão das relações e das lutas sociais, ao mesmo tempo sofre os efeitos da luta e serve de instrumento e de material para a sua comunicação. Bakhtin compreende a representatividade da palavra como características ideológicas, mas também a considera como “um signo neutro”, pois os demais signos são específicos, relativos a campos particulares da criação ideológica e que não são aplicáveis a outros domínios. A palavra, ao contrário, sendo neutra em relação a qualquer função específica, pode preencher qualquer função ideológica, seja estética, científica, moral ou religiosa. Mas nenhum signo é completamente substituído pela palavra, ou seja, pode ser expresso por palavras: uma composição musical, uma produção teatral ou cinematográfica, uma representação pictórica, um ritual religioso ou um simples gesto humano. De qualquer maneira, mesmo não sendo substituídos por palavras, os signos, ao mesmo tempo, se apoiam nas palavras e são acompanhados por elas.
A palavra, ainda em suas propriedades, encontra-se presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação. Portanto, incide diretamente no processo de consciência: “torna-se parte da unidade da consciência, verbalmente contida”. Por isso, a palavra, de acordo com o autor, situa-se como “o primeiro meio da consciência individual”. Embora resulte do “consenso entre os indivíduos” – no sentido da “comunidade semiótica” –, a palavra é produzida pelos próprios meios do organismo individual, o que a torna material semiótico da vida interior, da consciência (discurso interior).
Essa condição excepcional da palavra como instrumento da consciência permite que ela se expresse como fundamental nos processos de compreensão de todos os aspectos ideológicos, não podendo ocorrer tal entendimento sem a existência do discurso interior. As manifestações da criação ideológica – todos os signos não verbais – baniram-se no discurso e não podem ser isoladas ou totalmente separadas delas.
Linguagem, pensamento e hegemonia
Em cada época, os grupos sociais têm seu repertório e formas de discurso específicos que estão imbricados nas relações sociais de produção e na estrutura sociopolítica. Dessa maneira, nas relações sociais a palavra torna-se “a arena onde se confrontam os valores sociais contraditórios” [6]. Os conflitos na língua refletem os conflitos entre os indivíduos, grupos e classes no interior do sistema, que por sua vez encontra-se hegemonizado por valores sociais dominantes sobre propriedade, relações entre gêneros, justificativas para as violências sociais, enfim as formas que justificam a exploração e opressões nas relações sociais. A comunicação verbal, nesse sentido, implica conflitos, relações de dominação e de resistência, ou adaptação, à posição e utilização da língua pela classe dominante para fortalecer seu poder.
Por essa razão, na linguagem e no pensamento estratégico, em meio às relações de dominação, apresenta-se a questão da hegemonia de uma classe social sobre outras.
Williams considera a hegemonia como uma complexa relação de experiências, relações e atividades que estão interiorizadas nos indivíduos.
“É todo um conjunto de práticas e expectativas, sobre a totalidade da vida: nossos sentidos e distribuição de energia, nossa percepção de nós mesmos e de nosso mundo. É um sistema vivido de significados e valores – constitutivo e constituidor – que, ao serem experimentados como práticas, parecem confirmar ”[7]
Como práxis em processo, a hegemonia se altera sempre que as condições históricas se transformam. A ideia de hegemonia sugere que uma determinada classe domina e subordina significados, valores e implicações a outras classes. Nesse sentido, a linguagem tem relevância na produção e reprodução da hegemonia na sociedade: “a sociedade não é apenas a casca morta que limita a realização social e individual. É sempre também um processo constitutivo com pressão muito poderosa, que é internalizado e torna vontades individuais.”
Essencialmente, hegemonia é um conceito político. Por constituir interesses diferentes e antagônicos, ideais, princípios, modos de viver e visões de mundo, a hegemonia expressa-se no plano da linguagem e do pensamento por meio de lemas, palavras de ordem, temas, controvérsias, explicadas sobre o passado e o presente e reinterpretações da história.
Para Williams, uma hegemonia viva é sempre um processo; ela é apenas um sistema ou uma estrutura, do ponto de vista analítico. É um complexo vivido de experiências, relações e atividades com pressão e limites específicos e mutáveis. Ela não existe de maneira estática na forma de dominação; exige continuamente ser renovado.
A proeminência de alternativas políticas e culturais, e de inúmeras formas de oposição e de luta, é importante não apenas em si mesma, mas como traço indicativo de que um processo hegemônico deve operar e controlar na prática. Uma hegemonia estática, do tipo indicado pelas totalizações abstratas da “ideologia dominante” ou da “visão de mundo”, pode isolar e ignorar essas alternativas e oposições, mas apenas na medida em que haja funções hegemônicas capazes de controlá-las, transformá-las ou até lhes incorporar. Pelo contrário, no processo ativo, a hegemonia deve ser vista como mais do que simples transmissão de uma dominação imutável. Todo processo hegemônico precisa ser especialmente atento e capaz de responder às alternativas e oposições que questionam e desafiam sua dominação. A realidade do processo cultural deve ser sempre capaz de incluir esforços e contribuições daqueles que, de um modo ou de outro, estão fora ou na margem dos termos da hegemonia específica.
[1] Michail Bakhtin (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem, São Paulo: Hucitec, 1995.
[2] Bakhtin, op.cit., p.31.
[3] Idem, p.32.
[4] Idem, p.36.
[5] Michail Bakhtin (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem, p. 46.
[6] Michail Bakhtin (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem, p. 14.
[7] Raymond Williams, Marxismo e literatura, Buenos Aires: La Cuarenta, 2009, p.91.


