Marxismo e cultura: a questão da alienação

Existe uma tradição no debate sobre a cultura no marxismo, que pode ser retomado. O que importa nessa discussão não é fetichizar o tema, mas sim considerá-lo como fenômeno múltiplo que condensa uma intrincada rede de mediações entre as expressões ideológicas e as relações sociais produção. O que não pode, no sentido investigativo, é simplificar idealisticamente a perspectiva de cultura às manifestações artísticas e intelectuais, geralmente associadas aos "grandes gênios".
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“A superação da propriedade privada é assim a completa emancipação de todos os sentidos e atributos humanos; mas é essa emancipação porque os sentidos e atributos tornaram-se humanos, tanto subjetiva quanto objetivamente. O olho tornou-se um olho humano, assim como seu objeto tornou-se um objeto social e humano, feito pelo homem e para o homem. Os sentidos tornaram-se assim teóricos na sua práxis imediata. Eles se relacionam com a coisa em função dela mesma e com o homem, e vice-versa. A necessidade e o gozo assim perderam sua natureza egoística, e a natureza perdeu sua mera utilidade, no sentido de que seu uso se tornou um uso humano.”[2]

“Só através do desenvolvimento objetivo da riqueza da natureza humana poderá a riqueza da sensibilidade subjetiva humana – um ouvido musical, um olhar para a beleza da forma, em síntese, sentidos capazes de gratificação humana – ser cultivada ou criada. Pois não só os cinco sentidos, mas também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor etc.), numa palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos – tudo isso só vem a ser através da existência de seus objetos, através da natureza humanizada. O cultivo dos cinco sentidos é a obra de toda a história anterior. O sentido que é prisioneiro da necessidade prática bruta tem só uma significação restrita. Para um homem faminto a forma humana da comida não existe, só existe sua forma abstrata; ela pode mesmo estar presente em sua forma mais tosca, e seria difícil dizer como essa maneira de comer difere da dos animais… a sociedade plenamente desenvolvida produz o homem em toda a riqueza de seu ser, o homem rico, dotado profunda e abundantemente de todos os sentidos como sua realidade constante”[3]


[1] Para a presente discussão, utilizo o texto Manuscritos econômico-filosóficos (São Paulo, Boitempo, 2004). Trabalho também com a edição on line do portal Marxist.org – Karl Marx, Manuscritos económico-filosóficos – https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

[2] Karl Marx, Manuscritos económico-filosóficos,1844- https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

[3] Karl Marx, Manuscritos económico-filosófico – https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

[4] Terry Eagleton, O sublime do marxismo, in: A ideologia da estética, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, p.55-77.

[5] Idem.