A intervenção militar conjunta EUA/Israel contra o Irã[i] expõe mais uma vez a covardia e as mentiras de Trump, seus assessores, e do Estado genocida de Israel. É uma guerra imperialista contra a soberania e autodeterminação dos povos iraniano, palestino e libanês. As “negociações” diplomáticas entre EUA e Irã estavam em curso, mas no dia 28 de fevereiro (sábado) as forças armadas estadunidenses e israelenses lançaram uma campanha militar com extensos bombardeios aéreos contra centenas de locais militares e civis no país. Esses ataques ocorreram logo após o assassinato da principal liderança iraniana, o aiatolá Ali Khamenei, e outros 40 dirigentes iranianos. Além dessas mortes, inúmeros civis foram também assassinados. Em resposta, as forças iranianas realizaram operações retaliatórias com drones e mísseis contra Israel e bases militares estadunidenses no Oriente Médio.
Os desdobramentos da guerra imperialista contra o Irã, até o momento, não são previsíveis. O que era para ser uma guerra rápida, atravessou a quarta semana do conflito, e sua evolução não favoreceu o imperialismo estadunidense. Trump acena com uma negociação, impondo 15 ridículas condições, mas mantém as ameaças de ataque terrestre às instalações iranianas na ilha de Kharg e outras ilhas, continua enviando forças e equipamentos militares para a região e as forças sionistas israelenses insistem em ataques contra o país. O cenário indica que pode se tornar um gatilho imprevisível de descontentamento crescente nos EUA e a intensificação do conflito regional no chamado Oriente Médio. Além disso, esboça um possível “basta” (momentâneo) às pretensões colonizadoras e genocidas israelenses, uma vez que o país começa a indicar exaustão em suas forças militares, desentendimentos na cúpula da ultradireita sionista, e crescente crítica da população por causa da duração da guerra e seus efeitos no país.
Existe grande imprevisibilidade nessa guerra, em seu desfecho e desdobramentos regionais e internacionais, mas há uma dimensão inteiramente previsível: a crise humanitária, os crimes de guerra e o genocídio. Esses crimes sabe-se o que significarão para os próximos anos e décadas: fome e miséria. A chamada “superioridade tecnológica e militar” ocasiona alta capacidade de destruição, degradação completa às infraestruturas social e energética, impactos ambientais e gera e intensifica permanentes penúrias sociais. É a barbárie causada pelo imperialismo estadunidense, pelo Estado sionista israelense e por seus aliados.
No Irã, os números aproximados, iniciais e parciais estimam pelo menos 1.300 civis assassinados e mais de 1.000 militares mortos. Na Palestina, ultrapassam 72 mil assassinados em Gaza até fevereiro de 2026 e cerca de 1 mil palestinos na Cisjordania, dentro da perspectiva sionista de limpeza étnica. A maior parte da infraestrutura (habitações, hospitais e escolas) da Faixa foi destruída; o fornecimento de eletricidade e combustível foi cortado, como também a usina de dessalinização para água potável. No Líbano, Israel bombardeia Beirute e o sul do país justificando combate ao Hezbollah – que confronta o sionismo em defesa do Irã – mas em realidade quer avançar em seu projeto colonizador. Atinge a população matando mais de 1.200 civis desde março; no sul libanês mais de 800 mil libaneses são expulsos de suas casas e vilas, sendo demolidas regiões inteiras; a infraestrutura hídrica e social é danificada, como ocorreu com Gaza.
Ao lado da dramática situação humanitária, essa guerra revela outras determinações que são necessárias analisar. Por um lado, apresenta-se, no interior da lógica bélica, a questão do complexo industrial-militar, cada vez mais articulado às sofisticadas tecnologias e à Inteligência Artificial, gerando impressionantes ganhos econômicos para a indústria de armamentos. Por outro lado, de maneira contraditória, revela os limites materiais da sua própria capacidade de produção industrial. O que esse conflito está indicando não é apenas um confronto militar convencional, mas a emergência de uma forma de guerra na qual a assimetria tecnológica deixa de garantir superioridade estratégica. É especificamente sobre esses aspectos que nos deteremos neste artigo.
Na atual guerra, a utilização massiva de armamentos iranianos de “baixo” custo, combinada à dispersão territorial e à capacidade de impedir a circulação de mercadorias globais (commodities) no Golfo Pérsico, impõe limites materiais à ação do imperialismo estadunidense, revelando contradições entre sua capacidade tecnológica e sua base industrial de sustentação prolongada do conflito. Não foi suficiente o modelo de guerra baseado na supremacia tecnológica, ataques de precisão, guerras rápidas e destruição unilateral, como ocorreu no Iraque, Líbia, Yemen e recentemente na Nigéria.
Essa dinâmica geral se expressa concretamente no desenvolvimento do conflito, tanto na resistência político-militar iraniana quanto nos seus desdobramentos econômicos e políticos internacionais. O regime iraniano tem indicado até o momento grande capacidade estratégica e militar de enfrentamento, embora em completa inferioridade bélica. Além disso, diferente do que ocorreu com a Venezuela, a estrutura política autocrática iraniana – repressiva e ditatorial – mostrou-se muito consolidada; refaz rapidamente as perdas de suas lideranças assassinadas e continua a reprimir opositores e possíveis retomadas de manifestações populares contra o regime. Parece que Trump não esperava por nada disso.
Trump não esperava os efeitos internacionais e internos dessa intervenção, menos ainda a resistência iraniana. “Estreito de Ormuz” e “drones Shaheds-136” tornaram-se expressões malditas para o imperialismo. Os resultados da guerra afetaram imediatamente a elevação do preço do barril de petróleo, que chegou em alguns momentos a US$ 120, além dos preços do gás natural e fertilizantes os quais países do Oriente Médio são grandes produtores mundiais. Então ocorreu uma subida generalizada no preço da gasolina e do diesel, como também nos insumos básicos utilizados para a produção agrícola. Trump viu-se enredado nas pressões dos interesses envolvidos, que o tem levado à inflexão de suas ações militares: recuou para uma trégua provisória que ele jura que é real.
Trump já se desenha como o principal perdedor dessa guerra, embora em seus discursos (e de assessores) a apresente como vitoriosa. É nítida, nas pesquisas de opinião pública estadunidense, a queda de sua popularidade, inclusive em amplos setores da juventude que nele haviam votado. Em sua própria base política, dentro do MAGA e entre os republicanos, observa-se grande descontentamento e possíveis fissuras.
Por sua vez, o Estado sionista e genocida de Israel e seu líder Natanyahu, até o momento, pareciam ser os principais beneficiados pela guerra, ao lado do complexo industrial-militar estadunidense. Diferentemente de Trump, a imagem de Natanyahu – marcada por denúncias e processos de corrupção que limitam suas pretensões eleitorais em outubro – parecia ter se recuperado junto à população israelense. No entanto, pesquisas disponíveis já indicavam elementos contraditórios[ii]. A população judaica do país apoiava majoritariamente os ataques ao Irã e ao Líbano, contudo a popularidade do primeiro-ministro permanecia muito baixa[iii]. Nesse contexto, o governo israelense buscou avançar em seus objetivos estratégicos: manter o processo de colonização sobre a Palestina, ampliá-lo sobre o sul do Líbano, e talvez liquidar ou debilitar ao máximo o regime iraniano. Essas vitórias, no entanto, estãp se revelando muito provisórias, especialmente diante da intensificação dos ataques iranianos ao território israelense, inclusive em Tel Aviv, o que tende a gerar crescente insegurança e tensão social interna.
A estratégia iraniana: preparação, geopolítica e armas de menor custos
A estratégia iraniana baseia-se em estruturas descentralizadas – forças regulares, milícias aliadas, sistemas não tripulados e capacidades cibernéticas. Essa estratégia envolve o uso de sistemas de baixo custo – drones e mísseis balísticos de curto e médio alcance – utilizados de maneira combinada, caracterizando-se por ataques de saturação das defesas inimigas, como as de Israel e países do Golfo Pérsico (Emirados Árabes, Arábia Saudita, Catar). A guerra iraniana não se estrutura centralmente em integração digital sofisticada ou inteligência artificial; apoia-se em redes humanas, alinhamento ideológico teocrático e formas indiretas e descentralizadas de coordenação estratégica. Trata-se, portanto, de uma forma de guerra assimétrica adaptada às limitações tecnológicas e às condições geopolíticas do país. Essa diferença estrutural contribui para explicar por que a superioridade tecnológica do imperialismo estadunidense e do sionismo israelense não se traduziu em vitória rápida do conflito.
O Irã desenvolveu uma perspectiva de “guerra assimétrica” que elaborou ao longo de anos de preparação e projeção para possíveis intervenções militares estrangeiras. O aspecto nevrálgico encontra-se em um elemento geopolítico básico: o Estreito de Ormuz. Irã sempre o considerou estratégico em suas previsões sobre possíveis ataques. Dessa forma, a estratégia iraniana ampliou o conflito para além do plano militar, atingindo diretamente os fluxos econômicos globais e elevando os custos gerais da guerra. Afetou fortemente a circulação de petróleo, gás natural e fertilizantes dos países da região, fazendo os preços subirem de maneira acentuada. O barril do petróleo chegou a US$ 120, embora tenha variado, o que nos EUA alçou o galão de gasolina em à media de US$ 4,02 (30 de março), caso inédito nos últimos anos. A repercussão foi imediata nos países da União Europeia e no Reino Unido. E rapidamente dá sinais de seus efeitos no Brasil, por exemplo, em período eleitoral que se estreita cada vez mais para o atual governo.
Trata-se de uma forma de guerra que explora a geopolítica e a assimetria de custos, impondo desgaste ao inimigo tecnologicamente superior. Nessa perspectiva construiu por anos seus arsenais de mísseis e drones, que estão espalhados pelo país e ocultos. Atingem instalações militares e infraestrutura energética em países do Oriente Médio e impedem a passagem de navios cargueiros pelo Estreito de Ormuz. Esse arsenal de drones e mísseis balísticos foram subestimados pelos EUA e Israel, tornando o país um adversário qualitativamente superior a outros oponentes do imperialismo estadunidense. Os ataques iranianos baseiam-se em enxames de drones Shahed-136, com produção em grande quantidade e que são utilizados para saturar o sistema antiaéreo do inimigo. Enquanto os drones Shahed-136 custam cerca de US$ 20 mil a US$ 50 mil, os mísseis Patriot estadunidenses custam US$ 3,7 milhões[iv]. Os drones marítimo – embora também mísseis e minas – atingiram pelo menos 18 navios mercantes no Estreito de Ormuz.
Essa estratégia produziu efeitos concretos. No Bahrein, mísseis balísticos e drones atingiram o quartel-general da Quinta Frota da Marinha estadunidense; no Catar, um radar de alerta antecipado, raro e caro, foi destruído; o mesmo ocorrendo na Jordânia com um sistema de defesa antimíssil móvel terrestre – o radar de uma bateria THAAD de US$ 300 milhões de dólares. Esses ataques evidenciam a capacidade iraniana de atingir infraestruturas críticas, mesmo diante de sistemas avançados de defesa aérea.
Qual é de fato a capacidade militar de EUA e Israel em continuarem a lançar ataques e realizar defesas com os tipos de equipamentos de suas forças militares? Eles estão ficando sem recursos para levar adiante a guerra contra o Irã.
Superioridade militar e limites da capacidade industrial estadunidense
A superioridade militar/tecnológica estadunidense não se traduziu, até o momento, em uma derrota rápida do Irã. A partir da quarta semana, os EUA começaram a indicar sinais de desgastes nessa guerra. Aspectos fundamentais começaram a se manifestar que se referem aos gastos militares gigantescos, à incapacidade industrial de reposição dos estoques militares e as suas consequências econômicas e políticas. Uma vitória na guerra exigiria o envio de tropas terrestres estadunidenses em uma expedição que seria marcada por muitas baixas dos invasores e de imprevisível resultado. Situação que Trump, em meio às suas loucuras, hesita em enfrentar. Os EUA, no entanto, têm enviado para região mais forças militares; ameaça com intervenções terrestres (possivelmente pontuais, se for o caso).
De acordo com uma think tank imperialista, especializada na “defesa nacional dos EUA e de seus aliados”, os primeiros dias da guerra foram mais intensos do que o início de qualquer outra campanha militar na história das forças armadas estadunidenses[v]. Em cerca de 96 horas de ataques iniciais foi estimado o disparo de 5.197 munições de 35 tipos diferentes, o que significaria um custo de reposição estimado entre US$ 10 e US$ 16 bilhões[vi] para quatro dias. Outros fatores não estão considerados nos valores, entre os quais os equipamentos militares e danos às bases militares e à infraestrutura de defesa aérea de alta tecnologia. A reposição dessas munições não pode ocorrer em 4 dias ou em 4 meses. A questão industrial, isto é, a capacidade de reposição rápida dessas munições é possivelmente um dos grandes gargalos de Trump. O que se tornou uma preocupação crucial para analistas imperialistas e para o Pentágono é que a baixa no estoque dos armamentos estratégicos estadunidenses significa ter menos munições contra uma hipotética guerra no Pacífico, contra a China, Coreia do Norte ou mesmo Rússia.
Até 10 de março, ainda de acordo com a estimativa, os custos somados entre munições, sensores e aeronaves aproximavam-se de US$ 20 bilhões – esses custos não incluem gastos com munição após as 100 horas iniciais e outros custos operacionais para as forças e apoios terceirizados – combustível de aviação, alimentação, alojamento etc. Entre os equipamentos militares destruídos pelos mísseis e drones de “baixo custo” – “baixo” em relação aos equipamentos sofisticados estadunidenses – estariam: o radar de alerta NA/FPS-132 no Catar; múltiplos radares NA/TPY-2 Thaad na Jordânia, Kuawait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos; e o radar tático NA/TPS-59 no Bahrein. Soma-se a isso os três caças F-15-E Strike Eagles estadunidenses abatidos pelo Kwait, e os 11 drones MQ-9 Reaper abatidos pelos iranianos.
Essa intensidade inicial revela não apenas o volume da guerra, mas também os limites estruturais de sua sustentação.
Tal análise considera que a guerra está consumindo equipamentos que não são rapidamente produzidos: interceptores de defesa aérea, munições de ataque de longo alcance e sistema de radar e comando que transforma os mísseis interceptores em rede de defesa que protege bases aéreas, portos, lançadores e outras infraestruturas. A “degradação” dessa rede integrada significa menor capacidade para rastrear mísseis balísticos e drones iranianos. Outro aspecto muito importante e que demonstra aspectos de fragilidade industrial estadunidense: os equipamentos de guerra exigem minerais e materiais críticos. A China detém cerca de 90% dos minérios críticos que servem para a produção dos equipamentos bélicos estadunidenses.
O ritmo de consumo armamentístico evidencia limites na capacidade industrial de reposição dos EUA e capacidade de sustentar conflitos prolongados. Os estoques de mísseis estadunidenses são baixos, sua produção é lenta e com altos custos: no ano passado o país produziu 96 antiaéreos THAAD, 54 de ataque de precisão e 57 Tomahawk. O que está significando uma diminuição em relação aos intensos ataques iniciais[vii].
Esses limites tornam-se ainda mais evidentes quando se observam os custos totais e as perdas acumuladas ao longo das semanas iniciais do conflito.
A estimativa de analistas oficiais do Pentágono não são muito diferentes da que foi apresentada acima; eles estimam que o custo adicional da Operação Epic Fury nas três semanas iniciais – contando os recursos aéreos e marítimos posicionados na região desde final de dezembro – gira entre US$ 16,2 bilhões e US$ 23,4 bilhões[viii].
De acordo com essas informações oficiais, nas três semanas iniciais foram destruídos ou avariados diversos equipamentos[ix] com valores surpreendentes: F-15E Strike Eagle (US$ 100 milhões), caça avariado F-35A Lightning II (cerca de US$ 82,5 milhões), avião-tanque KC-135 Stratotanker com seis passageiros mortos (cerca de US$ 165 milhões), 12 drones MQ-9 Reaper (cerca de US$ 30 milhões cada), incêndio no porta-aviões USS Gerald R. Ford (submetido a reparos), radar NA/TPY-2 – parte da defesa antimíssil Thaad (cerca de US$ 300 milhões), avalia ao radar de alerta antecipado AN/FPS-132 (cerca de US$ 1 bilhão),
Dentro desse contexto, o Pentágono enviou uma solicitação de US$ 200 bilhões para o Escritório de Administração e Orçamento (OMB) do Congresso. Além desse valor, também apresentou ao Congresso um pedido de reprogramação de US$ 1,56 bilhão, transferindo os recursos de 70 linhas de programas militares, para sistemas de navegação e interceptores que foram destruídos ou avariados, entre os quais PAC-3 MSE (85), SM-6 (1), SM-3 1B (23) e THAAD (15).
Esses dados não apenas indicam a magnitude da destruição, mas apontam diretamente para a economia política da guerra contemporânea. Esses valores iniciais indicam não somente a irracionalidade e barbárie envolvidas, mas também indicam os interesses capitalistas por trás da produção das guerras. A lógica econômica se articula diretamente com a dinâmica militar observada no conflito.
Um míssil Patriot tem um custo de US$ 3,7 milhões; ele foi utilizado inicialmente para abater drones Shahed, com custo entre US$ 20 mil e US$ 50 mil.
Essas informações indicam a capacidade do Irã de sustentar ataques em volume, elemento central de sua estratégia de saturação dos ataques inimigos. Os mísseis balísticos e drones iraniano tiveram a capacidade de degradar os interceptores inimigos de defesa aérea, munições de ataque de longo alcance, sistemas de radar e redes integradas de defesa. À medida em que se debilitam esses sistemas de defesa, por sua vez, que mais artefatos “baratos” iranianos podem atravessar as defesas com menor probabilidade de intercepção.
De acordo com reportagem da Bloomberg Economics, publicada em 10 de março[x], a estimativa era que até a data 700 mísseis foram disparados pelos EUA, o que poderia esgotar-se nas próximas semanas. Ainda assim, os ataques iranianos com drones Shaheds-136 poderiam continuar, pois exigem pouca infraestrutura de lançamento e são produzidos com maior facilidade, em relação aos mísseis. Foram mais de 2.100 drones disparados, de acordo com a reportagem. Embora os ataques imperialistas tenham restringido a capacidade de produção dos mísseis e drones iranianos, os estoques e facilidade da produção dos drones se mantiveram – que é uma estrutura de fibra de vidro com um motor e explosivo com um sistema de orientação básico. Os Shahedes são em realidade pequenos mísseis de cruzeiro lentos que são facilmente detectáveis e alvos fáceis.
O imperialismo estadunidense e aliados, por sua vez, até o momento combatem utilizando mais de 1.000 interceptadores PAC-3. Isso significa quase o dobro da produção anual dessas armas e mais do que os EUA, União Europeia e Reino Unido forneceram à Ucrânia desde a invasão russa há quatro anos. A empresa Lockheed Martin Corp que fabrica o PAC-3 aumentará possivelmente a produção para mais de 2 mil unidades por ano até 2030. Para esse ano pretende produzir cerca de 650 artefatos. São utilizados equipamentos complexos e muitíssimo caros para abater drones de relativo baixo custo.
Os ataques iranianos reduzem os estoques dos interceptadores PAC-3 e tem danificado os radares e equipamentos usados para direcioná-los. Desde o início dos combates, os EUA perderam pelo menos sete drones MQ-9 Reaper não tripulados, o que significa que as forças armadas iranianas são uma ameaça às operações aéreas. Por essa razão, os EUA usaram mais mísseis de longo alcance (para ataques à distância), que também enfraqueceu os seus estoques militares. O que aconteceu, por exemplo, com as centenas de mísseis Tomahawk utilizados que tem capacidade de vôo de 1.600 km e com enorme precisão, que foram utilizados para assassinar as lideranças iranianas. Menos de 100 Tomahaw são produzidos por ano.
Nesse momento, começam a ser usadas armas de curto alcance pois as defesas aéreas iranianas estão enfraquecidas. Bombas aéreas JDAMs (Joint Direct Attack Munitions) tem relativo baixo custo (em relação aos mísseis de cruzeiro) e existe estimativa que o arsenal estadunidense mantêm cerca de 500 mil artefatos. Essa mudança indica uma adaptação tática diante do desgaste provocado pela dinâmica da guerra.
O sistema de interceptação estadunidense dos mísseis balísticos THAAD encontra-se com estoque limitado, uma vez que foi utilizado na guerra. Cerca de um terço do estoque já foi utilizado, enquanto a produção não ultrapassa 100 mísseis. De acordo com estudos do Congresso estadunidense, a taxa de intercepção desse sistema atinge cerca de 90% dos mísseis balísticos estadunidenses, taxa comparável ao sistema desenvolvido por Israel – o Arrow 3.
Ainda o estudo constatou que metade das intercepções contra o Irã em junho foram realizadas pelo sistema THAAD – 92 de um total de 632 interceptadores. Diz o relatório: “Poderia levar de três a oito anos para restabelecer o estoque de mísseis THAAD, cada um com um custo estimado de US$ 12,7 milhões”. Esse quadro evidencia os limites da capacidade de reposição dos sistemas defensivos mais sofisticados.
Nos quatro dias iniciais, os ataques iranianos com mísseis balísticos e drones esgotaram uma parte importante dos estoques dos EUA e seus aliados. Os mísseis Patriot estadunidenses que defendem os países do Golfo dispararam 943 mísseis interceptores – o equivalente ao produzido pelas fábricas da Lockheed Martin e da Boeing em 18 meses. As duas fábricas produzem anualmente 620 desses interceptores.
A estimativa é que, até 21 de março (domingo), cerca de 380 mísseis balísticos iranianos atingiram alvos em Israel. A estimativa é de que o Irã ainda possua entre 1.000 e 1.500 mísseis balísticos capazes de atingir Israel, de um total de mais de dois mil que possuía antes do conflito.
O Estado sionista de Israel aproxima-se da “exaustão militar” ?
Israel é a maior exportadora mundial de armamentos. Produz sistemas de intercepção de mísseis – Domo de Ferro, Estilingue de Davi e os sistema Arrow 2 e 3 -, drones e veículos aéreos não tripulados, mísseis e munições guiadas, blindados, armas de fogo e equipamentos leves, e cibersegurança e eletrônica.
Mas é incapaz de sustentar uma guerra de alta intensidade e prolongada em múltiplas frentes (Palestina, Libano e Irã) sem o apoio dos EUA[xi]. Não produz aeronaves de caça (F-15, F-16 e principalmente o F-35), munições de alta intensidade para conflitos prolongados, Sua “taxa de consumo” de dezenas de milhares de bombas guiadas e projéteis de artilharia, em resposta aos ataques iranianos, é maior que sua capacidade de produção, exigindo a reposição estadunidense. Os ataques de saturação dos mísseis balísticos iranianos exigem uma produção maior do sistema de mísseis Arrow. Ainda, as bombas bunker buster que pretendem atingir instalações subterrâneas profundas do Irã dependem de bombas estadunidenses que são estratégicas e exclusivas.
EUA fornecem 68% do armamento para o país: são US$ 3,8 bilhões anuais em ajuda militar[xii] e US$ 500 milhões por ano para defesa de mísseis[xiii] . São caças, helicópteros, mísseis de defesa aérea – sistema Domo de Ferro – e bombas guiadas e não guiadas[xiv]. Assim como os EUA com seus mísseis defensivos THAAD, Israel possivelmente enfrenta a escassez de seus mísseis Arrow 3[xv]. Estes são usados como primeiro sistema de defesa israelense contra os mísseis iranianos, seguido caso necessário pelo Arrow 2 e, por fim, pelo THAAD.
Exemplos bem recentes. Na quarta semana de guerra, Israel informou aos EUA que está com número muito baixo de interceptores de mísseis balísticos[xvi]. O país entrou na guerra com baixo estoque de interceptores, porque os utilizou em julho passado contra o Irã. Os ataques iranianos em saturação têm aumentado, reduzindo cada vez mais a capacidade do sistema de defesa de longo alcance israelense.
Anteriormente, em 06 de março, o Departamento de Estado americano aprovou “possível” Venda Militar Estrangeira para Israel (munições e suportes de munições) no valor de US$ 151,8 milhões. São 12 mil bombas de uso geral BLU-110A/B de 1.000 libras (450 kg)[xvii], sendo incluídos serviços de engenharia, logística e suporte técnico do governo e de contratados – sendo a principal empresa a Repkon USA. Combinadas com o sistema JDAM (Munição de Ataque Direto Conjunto), converte essas bomba “não guiadas” em artefatos guiados. São usadas em regiões povoadas, nas operações na Faixa de Gaza, Cisjordânia e agora também no sul do Líbano. São bombas “cirúrgicas” e demolidoras de estruturas de concreto. Existiria nesse caso uma emergência ligada aos “interesses de segurança nacional dos Estados Unidos”, o que dispensaria a revisão do Congresso: “Essa venda proposta contribuirá para a política externa e a segurança nacional dos Estados Unidos, ajudando a melhorar a segurança de um parceiro regional estratégico que tem sido, e continua a ser, uma força importante para a estabilidade política e o progresso econômico no Oriente Médio”.
Soma-se a isso manifestações de descontentamento de comandantes das forças militares israelenses e opositores contra o gabinete de Benjamin Natanyahu. O líder da oposição israelense, Yair Lapid, caracteriza que as forças armadas do país estão sobrecarregadas ao limite, enquanto o governo continua enviando o exército para uma “guerra em múltiplas frentes sem estratégia”[xviii], sem os meios necessários e com um número reduzido de soldados. Lapid é apoiador do fundamentalismo sionista e defende a expansão territorial israelense sobre a região, mas diz que a guerra nas frentes atuais está causando um grande número de vítimas e diz que o governo ruma para um “desastre de segurança”. Diz ele: “O governo está abandonando os soldados feridos no campo de batalha”.
As críticas do oposicionista sionista reverberam as afirmações de comandantes do exército israelense. O chefe militar, tenente-general Eyal Zamir, tem alertado ao gabinete de segurança de Nathanyahu sobre a exaustão militar, inclusive nos desgastes dos reservistas. O porta-voz militar, Brigadeiro-General Effie Defrin, em comunicado televisionado, avisa que são necessários mais soldados para os combates simultâneos em múltiplas frentes, incluindo Cisjordânia, Gaza e Síria. Nesse sentido, ocorre a proposta de que sejam convocados homens das comunidades ultraortodoxa Haredi, que estão isentos do serviço militar desde a criação do Estado de Israel, pois se dedicam em tempo integral aos estudos judaicos. Dessa maneira, aprofunda-se ainda mais uma crise no sionismo. Diz Lapid: “O governo precisa parar de ser covarde, suspender imediatamente todo o financiamento para os desertores haredim, enviar a polícia militar atrás dos desertores e recrutar os haredim sem hesitação”[xix].
O cenário que parece se desenhar em Israel colocará, caso o governo insista em prolongar a guerra, um enfraquecimento militar – sistema de defesa antiaéreo, munições de ataque e soldados. Por sua vez, o apoio da população à guerra vai inflexionar, uma vez que os ataques iranianos continuarão em solo israelense, levando a mais mortes e feridos.
O recuo e proposta de negociação de Trump são reais?
Trump recuou, pelo menos momentaneamente, liberando as sanções contra o petróleo iraniano e afirmou que estava negociando um acordo para pôr fim à guerra e que adiaria – inicialmente disse por cinco dias e depois estendeu até 06 de abril – um ataque contra território iraniano[xx]. Isso foi um recuo do que ele havia ameaçado outras vezes, inclusive no sábado (20 de março), em relação a atacar as instalações de energia iraniana na ilha de Kharg.
Inicialmente o regime iraniano negou qualquer negociação em curso. A informação foi tachada de falsa pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo presidente do Parlamento do Irã. No entanto, a agência estatal iraniana Mizan declarou que ocorreram iniciativas para relativizar as tensões na região. Os representantes oficiais de Omã também declararam que havia discussões para estabelecer “acordos de passagem segura pelo Estreito de Ormuz”.
Na imprensa estadunidense seguem as notícias sobre os reforços militares enviados para a região. De fundo, existe a seguinte mensagem: uma escalada militar dramática se tornará mais provável se não houver progresso nas negociações diplomáticas e, em especial, sobre o Estreito de Ormuz. Haveria uma estimativa de enviar até 10 mil soldados de combate adicionais para o Oriente Médio[xxi]. A concreção disso significaria um possível sinal de fato de opção por operações terrestres[xxii]. Desta maneira, Trump teria mais “opções militares” enquanto avalia as negociações com o Irã.
Quatro opções militares estariam desenhadas pelo Pentágono: a) invadir ou bloquear a Ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo iraniano; b) invasão da ilha de Larak que apoia militarmente o controle do Estreito; c) ocupação da ilha de Abu Musa e outras menores, na entrada do Estreito; b) apreender navios petroleiros no leste do Estreito. Ou então, operações terrestres em território e garantir a posse do urânio enterrado em instalações nucleares. Disse a porta-voz da Casa Branca: “O presidente não está blefando e está pronto para desencadear o inferno. O Irã não deve errar nos cálculos novamente… qualquer violência a partir deste ponto será porque o regime iraniano se recusa a chegar a um acordo”[xxiii].
Concreta e realmente estão sendo deslocados fuzileiros navais para a região, mas não parece que são para incursões terrestres. Dois dias depois da declaração de Trump, surgiu a notícia de que o Pentágono planejava enviar uma infantaria com cerca de três mil soldados para o Oriente Médio[xxiv]. É uma brigada de combate (82ª Divisão Aerotransportadora[xxv]) auxiliar de emergência do Exército que teria poder de mobilização e deslocamento para qualquer lugar do mundo em menos de 24 horas. Seus membros com treinamento em saltos de paraquedas seriam especialistas em áreas terrestres de conflito e atuariam com outras divisões. Embora deva ser considerada dentro da guerra de propaganda, caso confirmada, a notícia abre mais uma incógnita sobre o que está por vir. No entanto, embora de locomoção rápida, ela seria uma infantaria leve – ou seja, não utilizaria equipamentos de alto impacto – e, por essa razão, seria vulnerável aos ataques de blindados iranianos. Ou seja, haveria o risco de muitas baixas e êxito não provável – um dos temores de Trump diante da opinião pública estadunidense.
A situação, no entanto, não levou o Irã a “baixar a guarda”. Pelo contrário, no dia 23 de março (terça-feira) um míssel iraniano atingiu Tel Aviv – no dia 20, dois mísseis atingiram duas cidades israelenses- , a região curda do Iraque e, no Bahrein foram atingidas forças militares dos Emirados Árabes Unidos[xxvi].
Finalmente, as informações sobre a negociação foram confirmadas pelo jornal Tasnim. Os EUA exigem uma negociação rebaixada, em torno de 15 pontos, sob seus termos, a qual parece que o regime iraniano não aceita. Entre as condições iranianas apresentaram-se, na quarta-feira (27 de março), segundo informações da Tasnim, os seguintes pontos[xxvii]: os atos agressivos de assassinatos devem cessar; indenizações e reparações de guerra; fim das agressões em todas as frentes e grupos de resistência na região. Ainda defende a soberania iraniana sobre o Estreito de Omuz e o reconhecimento das outras partes. Essas seriam as exigências de cessar fogo, além daquelas que se apresentaram na segunda rodada de negociações nucleares de Genebra, que foi abandonada com o início da guerra de agressão.
Quais as questões que estiveram nesse recuo trumpistas? Evidentemente, são várias interpretações. Mas a principal são as consequências econômicas internacionais e, principalmente, os efeitos políticos nos EUA.
As mediações políticas iniciais para a negociação localizam-se em Riad (Arábia Saudita, 18 de março) entre representantes do Egito, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão que conversaram sobre uma saída diplomática para a guerra[xxviii]. Essa reunião concentrou-se na proposta de abertura do Estreito de Ormuz. A partir de então estabeleceram contato com setores da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, através do qual apresentaram proposta para suspender s o bloqueio do Estreito de Ormuz. Defenderam que o Estreito fosse supervisionado por um comitê neutro que permitisse acesso seguro aos navios. Os iranianos responderam que cobrariam taxas dos navios em trânsito. A Arábia Saudita recusou-se a tal proposta, o que para ela seria a consolidação da influência iraniana sobre as exportações no Golfo Pérsico.
Trump teria aceitado a proposta de negociação, mesmo depois que fizera (em 20 de março) a ameaça de um ataque terrestre ao país, caso o Irã não abrisse em 48 horas o Estreito. A mudança na posição do mandatário ocorreu depois de discussões com os intermediários do Oriente Médio. Certamente que isso se conecta com a questão mais de fundo que pressiona o governo trumpista: as consequências políticas e econômicas da guerra.
Os mediadores árabes, que têm seus interesses na região prejudicados, são céticos quanto aos desdobramentos diplomáticos. Irã exigiria como condição não haver futuros ataques ao país; pressionaria por indenizações por danos sofridos na guerra; e, de maneira semelhante ao que ocorria antes, não aceita o desmantelamento do seu programa nuclear, a suspensão do programa de mísseis balísticos e o fim do apoio a milícias aliadas. A declaração do presidente do parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf, antes da confirmação de negociação, foi a seguinte: “O povo iraniano exige punição completa e com remorso dos agressores”. E dizia também que não houve negociações e que tal otimismo “é usado para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos”[xxix].
Algumas considerações finais
O imperialismo estadunidense com Trump indica que sua voracidade econômica e violência militar não pretendem ter limites. A economia estadunidense – cada vez mais marcada por uma tendencia à queda da taxa de lucros – passa a orientar-se crescentemente pela violência como meio de ampliação e manutenção de seus mercados, pela pilhagem e por intervenções militares abertas. É o que se observa na América Latina, com a pressão por alinhamentos econômicos e políticos e a crescente militarizando da região. Os casos da Venezuela e agora de Cuba são ilustrativos. Também tem suas formas mais acabadas com a agressão imperialista ao Irã, sua extensão sionista ao Líbano e a continuidade do genocídio na Palestina, que são históricas, mas se recolocam e indicam o esboço de uma nova configuração da ordem imperialista, caracterizada pela retomada/intensificação da violência desvelada e militarizada.
Nesse contexto, o complexo industrial-militar, fonte de grandes lucros para frações da burguesia imperialista, reafirma um papel que sempre lhe foi central, mas que assume maior destaque nos últimos tempos. Parece até que a lucratividade do capital passa, cada vez mais, pela produção e reprodução das guerras e das intervenções militares, embora não seja essa, nem de longe, a determinação central para superar a crise do capitalismo estadunidense. Basicamente, essa fração do capital é parasitária, vive principalmente impulsionada por vastas fatias do orçamento público dos EUA.
A dimensão principal e inteiramente previsível desse processo é uma somente: a crise humanitária, os crimes de guerra e o genocídio. Esses crimes já indicam suas consequências para os próximos anos e décadas: fome, miséria e destruição social e cultural. Ao lado da superexploração do trabalho, a chamada “superioridade tecnológica e militar” amplia a capacidade de destruição, provoca a degradação completa das infraestruturas sociais e energética, intensifica os impactos ambientais, intensificando formas permanentes de penúria social. É a barbárie causada pelo imperialismo estadunidense e seus aliados.
A guerra contra o Irã revela uma contradição icentral da ordem imperialista contemporânea. Por um lado, os Estados Unidos e sua aliança mantêm a superioridade tecnológica e militar sem precedentes, baseada em sistemas sofisticados de ataque, vigilância e defesa, que também alimentam lucros fabulosos para o complexo industrial-militar. Por outro lado, essa mesma guerra evidencia limites materiais cada vez mais nítidos, relacionados à capacidade industrial de sustentar conflitos de alta intensidade e longa duração.
A estratégia iraniana, baseada na assimetria de custos, no uso massivo de armamentos de baixo custo e na exploração de fatores geopolíticos e econômicos, como o Estreito de Ormuz, tem demonstrado capacidade de impor significativo desgaste aos inimigos tecnologicamente superiores. Ao saturar a capacidade do uso contínuo de sistemas caros e complexos de defesa, como interceptadores e radares de alta precisão, o Irã desloca o centro da guerra para o terreno da sustentação econômica e industrial.
Nesse contexto, a chamada “superioridade tecnológica” deixa de ser garantia de vitória rápida. A guerra passa a depender cada vez mais da capacidade de reposição de estoques, das cadeias de produção e do controle de recursos minerais críticos estratégicos – em grande parte detidos pela China. A intensificação do conflito revelou que os Estados Unidos e seus aliados enfrentam limites reais na reposição de munições, na manutenção de seus sistemas de defesa e na sustentação de operações prolongadas.
Essa guerra imperialista evidencia o impacto político e econômico, tanto no cenário internacional quanto no interior dos EUA e de Israel. A elevação dos preços de energia e insumos, combinada com o desgaste militar e a ausência de resultados rápidos, pressiona o governo Trump e amplia tensões em sua base social e política, de maneira semelhante ao que ocorre com o governo de Benjamin Netanyahu.
Nesse contexto, a guerra contra o Irã, sejam quais forem seus desdobramentos, não é apenas mais um episódio de intervenção imperialista no Oriente Médio. Ela aponta para transformações mais profundas na configuração da ordem imperialista internacional e na natureza dos conflitos contemporâneos, nos quais a capacidade tecnológica convive com limites materiais estruturais, ainda que com enorme poder de destruição humana, material e ambiental. Trata-se, portanto, de um conflito cujo desfecho permanece aberto, mas que revela fissuras importantes na capacidade de dominação militar das principais potências imperialistas.
[i] Guerra não declarada que foi chamada nos EUA de Operação Fúria Épica e, em Israel, de Operação Leão Rugidor.
[ii] INSS – Tel Aviv University, Resultados de um levantamento relâmpago – Duas semanas após o início da Operação Leão Rugidor [ Findings of a Flash Survey—Two Weeks into Operation Roaring Lion], 19 de março de 2026.
[iii] De acordo com o levantamento, 78,5% dos entrevistados apoiavam os ataques israelenses-americanos, sendo que 60% estavam contentes com as conquistas sobre o Irã, mas 54% apoiam a continuidade da invasão até a queda do regime. Em relação às invasões contra o Líbano, 41% consideram que isso possibilitará muita tranquilidade e segurança nos próximos anos; 52% apoia um novo acordo de segurança com o Líbano patrocinado pelos EUA. E aqui uma das principais contradições no levantamento: enquanto 77% dos entrevistados mantém alta confiança nas Forças de Defesa de Israel e 22% têm baixa confiança, somente 31% expressa “alta confiança” no governo israelense. Vide INSS – Tel Aviv University, Resultados de um levantamento relâmpago – Duas semanas após o início da Operação Leão Rugidor [ Findings of a Flash Survey—Two Weeks into Operation Roaring Lion], 19 de março de 2026. https://www.inss.org.il/publication/survey-lions-roar-2/
[iv] Mas Boot, A guerra com o Irã revela os limites do poder militar dos EUA, The Washington Post, 16 de março de 2026.
[v] Macdonald Amoah e Morgan D. Bazilian, Mais de 5.000 munições foram disparadas nas primeiras 96 horas da guerra do Irã [Over 5,000 Munitions Shot in the First 96 Hours of the Iran War], Foreign Policy Research Institute, 16 de março de 2026.
[vi] Macdonald Amoah, Morgan D. Bazilian, Jahara Matisek, Mais de 5 mil munições foram disparadas nas primeiras 96 horas da guerra do Irã [Over 5,000 munitions shot in the first 96 hours of the Iran war], Foreign Policy Research Institute,
[vii] Geny Doyle, Jen Judson, Courtney McBride e Beca Wasser, O armamento barato e abundante do Irã coloca as forças armadas dos EUA sob uma pressão sem precedentes. [ Iran’s Cheap, Plentiful Weaponry Puts US Military Under Unprecedented Strain], Blomberg Economics, 10 de março de 2026.
[viii] Elaine McCusker e Richard Sims, Fúria Épica em três semanas [Epic Fury at Three Weeks], AEI – American Enterprise Institute, 20 de março de 2026.
[ix] Marco Weisgerber e Roque Ruiz, Os ativos militares dos EUA danificados ou perdidos na guerra do Irã [The U.S. Military Assets Damaged or Lost in the Iran War], The Wall Street Journal, 26 de março de 2026.
[x] Geny Doyle, Jen Judson, Courtney McBride e Beca Wasser, O armamento barato e abundante do Irã coloca as forças armadas dos EUA sob uma pressão sem precedentes. [ Iran’s Cheap, Plentiful Weaponry Puts US Military Under Unprecedented Strain], Blomberg Economics, 10 de março de 2026.
[xi] Jonathan Masters, Ajuda dos EUA a Israel em quatro gráficos [U.S. Aid to Israel in Four Charts], Council on Foreign Relations, 7 de outubro de 2025.
[xii] Robert Tait, Quais países fornecem armas a Israel e por que Biden reluta em interromper esse fornecimento [Which countries supply Israel with arms and why is Biden reluctant to stop?], The Guardian, 9 de abril de 2024.
[xiii] Jonathan Masters, Idem.
[xiv] Israel é o principal beneficiário de ajuda militar estadunidense, desde sai fundação em 1948, recebendo até 2023 o acumulado de US$ 158 bilhões (corrigido pela inflação). Em 2016, os dois países assinaram o terceiro acordo militar, Memorando de Entendimento decenal de ajuda militar, a partir do qual os EUA fornecerão US$ 38 bilhões até 2028: US$ 33 bilhões em doações financeiras e US$ 5 bilhões para defesa antimíssil. (…). Dessas ajudas militares, Israel desenvolveram sua própria indústria de armamentos, tornando-se o maior exportador de armas do mundo, inclusive com parcerias com empresas estadunidenses.
[xv] Assaf Gilead, Os estoques de interceptores dos EUA estão sendo reduzidos pela guerra com o Irã e podem levar anos para serem reabastecidos [US interceptor stockpiles being depleted by Iran war, could take years to replenish], The Jerusalem Post, 25 de março de 2026.
[xvi] Shelby Talcott, Exclusivo / Autoridades americanas dizem que Israel está com um número criticamente baixo de interceptores. [Exclusive / Israel is running critically low on interceptors, US officials say], 15 de março de 2026.
[xvii] Departamento de Estado dos EUA, Israel – Munições e Apoio a Munições, 06 de março de 2026.
[xviii] Al Jazeera, Líder da oposição israelense critica duramente ‘guerra em múltiplas frentes sem estratégia’ [Israeli opposition leader rails against ‘multi-front war without strategy’], 27 de março de 2026.
[xix] Le Monde, Exército israelense pede mais tropas na fronteira com o Líbano, enquanto oposição alerta que a escassez pode desencadear um “desastre de segurança” [Israeli army calls for more troops on Lebanese front, opposition warns shortage could trigger ‘security disaster’], 27 de março de 2026.
[xx] Luke Broadwater, Aaron Boxerman, Érika Salomão e Thomas Fuller, Trump afirma que os EUA estão negociando o fim da guerra, mas os iranianos reagem negativamente.[ Trump Says U.S. Is Negotiating End to War, but Iranians Push Back], The New York Times, 23 de março de 2026.
[xxi] The Wall Street Journal, Guerra ao Irã, 26 de março de 2026: EUA estenderão pausa nos ataques a instalações de energia iranianas, diz Trump. [Iran War, March 26, 2026: U.S. to Extend Pause for Strikes on Iran Energy Sites, Trump Says], 26 de março de 2026.
[xxii] Barak Ravid, O Pentágono avalia o envio de mais 10.000 soldados de combate para o Oriente Médio. [Pentagon weighs sending 10,000 more combat troops to the Middle East], Axios, 26 de março de 2026.
[xxiii] Declaração de Karoline Leavitt, in: Barak Ravid, O Pentágono se prepara para o ‘golpe final’ massivo na guerra contra o Irã [Pentagon prepares for massive “final blow” of Iran war], Axios, 26 de março de 2026.
[xxiv] Lara Seligman, Shelby Holliday e Michael R, Gordon, Pentágono enviará 3.000 soldados da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio [Pentagon to Order 3,000 82nd Airborne Soldiers to Middle East], The Wall Street Jounal, 24 de março de 2026.
[xxv] Existe desde 1917, sediada na Carolina do Sul. Realizaram a Operação Tempestade no Deserte (17 de janeiro de 1991). Na guerra de 100 horas no Iraque, capturaram milhares de soldados iraquianos, além de equipamentos, armas e munições., mas com a retaguarda de unidades blindadas e mecanizadas.
[xxvi] Gabby Sobelman, Yeganeh Torbati e Natan Odenheimer, Atualizações ao vivo da guerra no Irã: Teerã dispara novos bombardeios após os EUA alegarem progresso nas negociações[Iran War Live Updates: Tehran Fires New Barrages After U.S. Claims Progress on Talks], The New York Times, 24 de março de 2026.
[xxvii] Tasnin News Agency, Irã responde à proposta dos EUA: fonte [Iran Replies to US Proposal: Source], 26 de março de 2026.
[xxviii] Summer Said, Alexander Ward, Benoit Faucon e Laurence Norman, A diplomacia paralela por trás da mudança de posição de Trump sobre o Irã [The Back-Channel Diplomacy Behind Trump’s U-Turn on Iran], Wall Street Journal, 23 de março de 2026.
[xxix] Idem.
