Imperialismo e cultura - segunda parte

Cultura, políticas culturais e Unesco. As relações entre imperialismo e cultura no capitalismo contemporâneo

image_pdf

“10. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre as culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. Eles nos informam, pelo contrário, que essas diferenças se explicam antes de tudo pela história cultural de cada grupo. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. Ela constitui, de fato, uma das características específicas do Homo sapiens”. “15. b) No estado atual de nossos conhecimentos, não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos  humanos diferem uns dos outros pelos traços psicologicamente inatos, quer se trate de inteligência ou temperamento. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos” [11].

“O ato constitutivo da Unesco foi elaborado em novembro de 1945 por um comitê de redação que incluía representantes da França, Índia, do México, da Polônia, do Reino Unido e dos Estados Unidos da América. A recusa da União Soviética a participar enfraquece a representatividade da organização. A União Soviética só se tornará país-membro da Unesco em 1954, depois da morte de Stálin. A ausência de um dos grandes favoreceu a tese liberal em sua versão americana, ainda  denominada de doutrina do free flow of  information, quando se trata de introduzir e de interpretar nos textos a cláusula: ‘Facilitar a livre circulação de idéias por meio de palavras e da imagem”.É preciso esclarecer que o princíio do free flow, impulsionado em seus primórdios pelos representantes das indústrias midiáticas, tornou-se doutrina oficial antes mesmo do fim da guerra. O Congresso o ratifica em 1944. No ano seguinte, por ocasião da Conferência Interamericana sobre os Problemas da Guerra e Paz, que teve lugar na Cidade do México, ele foi incorporado à declaração intitulada declaração de Chapultepec, que lança as bases de uma reorganização das relações entre a América Latina e os Estados Unidos e dá o pontapé inicial em um ‘sistema americano’. Em 1945, a resistência, fundamentalmente do governo britânico, que teme a ‘imediata inundação das idéias americanas’, permite descartar o projeto proposto, no quadro da recém-nascida Unesco, pelos Estados Unidos de estabelecer um sistema de comunicação  de abrangência mundial. Em 1946, a diplomacia americana faz do free flow o eixo de sua política internacional em matéria de intercâmbio cultural.” [13]


[1] O presente texto, embora realizadas algumas mudanças, em seu conteúdo segue o artigo apresentado no VI Colóquio Internacional Marx-Engels, 2012, no GT Cultura, Capitalismo e Socilalismo.

[2] UNESCO.  Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões, 2005, UNESCO. Declaração universal sobre diversidade cultural. 2001. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001271/127160por.pdf. Acesso em 6/11/2011.

[3] UNESCO.  Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões, 2005, UNESCO. Declaração universal sobre diversidade cultural. 2001. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001429/142919s.pdf. Acesso em: 03/09/2011.

[4] UNESCO. Declaración de México sobre las políticas culturales. 1982. Disponível em: http://portal.unesco.org/culture/es/files/12762/112762/1329542/4031mexico_sp.pdf/me xico_sp.pdf. Acesso em: 10/11/2011.

[5] Katerina Setenou, L’Unesco et la question de la diversité culturelle, 1946-2007. Bilan et stratégies. Paris: Unesco, 2007.

[6] Armand Mattelart: Diversidade cultural e mundialização. São Paulo: Parábola, 2005; Mundialização, cultura e diversidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº31, dezembro de 2006, p.12-19.

[7] Mariella Pitombo Vieira,  Reinventando sentidos para a cultura. Uma leitura do papel normativo da UNESCO através da análise da Convenção sobre proteção e promoção da diversidade das expressões culturais. 2009. Tese de Doutorado (Ciências Sociais). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia

[8] Em outubro de 2009, a UNESCO contava com 193 Estados-Membros, 07 membros associados e 02 observadores. Alguns membros não são estados independentes e outros membros têm Comitês de organização nacional de alguns dos seus territórios dependentes. (vide portal …). Antecessor da entidade foi o  Comitê Internacional de Cooperação Intelectual (ICIC),   oficialmente criado em 4 de janeiro de 1922, como  órgão consultivo composto por pessoas eleitas com base em suas qualificações pessoais. Em 1925, o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (IIIC) foi criado para atuar como  agência executora para a CICI. Em 18 de Dezembro de 1925, o Bureau Internacional de Educação (IBE) começou a trabalhar como uma organização não-governamental a serviço do desenvolvimento educacional internacional. No entanto, o trabalho destas organizações foi interrompido com o início da Segunda Guerra Mundial.

[9] Sistema da Organização das Nações Unidas, fundada em 1945, é integrado por seis órgãos principais: Assembléia Geral, Conselho de Segurança, Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela, Corte Internacional de Justiça e Secretaria Geral. Também outros 16 órgãos compõem a Organização, entre os quais podemos citar: PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, criado em 1965 e principal órgão de assistência técnica da Organização; UNICEF – Fundo para Crianças, criado em 1946 com o objetivo de realizar socorro maciço às crianças e adolescentes vítimas da segunda guerra mundial, passou a contribuir com os governos nos serviços básicos na área da saúde, nutrição, higiene, ensino, controle de natalidade etc;  UNU – Universidade das Nações Unidas, em conjunto com a UNESCO, criada em 1973. Como instituições especializadas existem 16 entra as quais destacam-se:  Organização Internacional do Trabalho (OIT- criada em 1922, e torna-se primeira instituições especializadas da ONU), FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), OMS – Organização Mundial de Saúde, FMI – Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial.  

[10]Caberia a discussão crítica e contextualização histórica  dos conceitos e princípios liberais norteadores da referida Declaração.., como também a sua mutação ao longo da discussão que aqui nos propomos. No entanto, como escapa demais de nosso tema, preferimos indicar essa discussão nos seguintes autores e obras: (…). 

[11]  In: Roque Laraia, O conceito de cultura, p. 19.

[12]  Armand Mattelart,  Diversidade cultural e mundialização, São Paulo: Parábola, 2005, p.54

[13]  Armand Mattelart,  Diversidade cultural e mundialização,  São Paulo: Parábola, 2005, p.56-7.

[14] Vide: Katerina Setenou, L’Unesco et la question de la diversité culturelle, 1946-2007. Bilan et stratégies. Paris: Unesco, 2007.  Mariella Pitombo Vieira,  Reinventando sentidos para a cultura. Uma leitura do papel normativo da UNESCO através da análise da Convenção sobre proteção e promoção da diversidade das expressões culturais. 2009. Tese de Doutorado (Ciências Sociais). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia

[15]Sobre o desenvolvimento do conceito entre o século XVI-XIX, vide Williams, Palavras-chave.

[16]Em 1990 a Conferência Mundial sobre Educação realizada em Jomtien, na Tailândia, lançou um movimento global para oferecer educação básica para todas as crianças, jovens e adultos. Dez anos depois, no Fórum Mundial de Educação de 2000 realizado em Dakar (Senegal), os governos membros se comprometeram em alcançar a educação básica para todos até 2015.

[17] Na sequência do Relatório MacBride, a UNESCO introduziu a Sociedade da Informação para Todos, o programa às Sociedades do Conhecimento e a criação da Sociedade da Informação em 2003 (Genebra) e em 2005 (Tunis).

[18] UNESCO. Pacto internacional sobre direitos civis e políticos. 1966b. Disponível em: http://www.cidadecirtual.pt/acnur/refworld/refworld/instrumente/detent/civpot_p.htm Acessado em: 02/11/2011.

[19] UNESCO. Declaração de princípios da cooperação cultural internacional. 1966a. http://direitoshumanos.gddc.pt/DireitosHumanos/13_20/IIIPAG3_20.1.htm. em: 02/11/2011.

[20] UNESCO. Declaración de México sobre las políticas culturales. 1982. Disponível em: http://portal.unesco.org/culture/es/files/12762/112762/1329542/4031mexico_sp.pdf/me xico_sp.pdf. Acesso em: 10/11/2011.

[21]  Idem, op.cit.,p.14-5.

[22]  Raymond Williams,  Marxismo y literatura,  Buenos Aires: Las Cuarentas, 2009, especialmente no capítulo I, Cultura, p.32-64.

[23]Raymond Williams, Cultura, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p.13.

[24]    Raymond Williams,  Marxismo y literatura. 1979, p.91.

[25]   Raymond Williams,  Marxismo y literatura,  p.112-3.  

[26] Armand Mattelart, Mundialização, cultura e diversidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº31, dezembro de 2006, p.13.

[27][27]  Armand Mattelart, Mundialização, cultura e diversidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº31, dezembro de 2006, p.13

[28] A. Sist  e G. Iriarte,  “Da segurança nacional ao trilateralismo”,  In: A trilateral, nova fase do capitalismo mundial”, Petrópolis, Vozes, 1979,   p.79.