Florestan Fernandes: universidade pública, marxismo e revolução

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O espaço acadêmico de Florestan

 O caminho político no trotsquismo e o percurso teórico acadêmico

O intelectual  considera que absorver essas influências teria sido  muito pessoal, aí se localizaria a razão para explicar porque ele “não conseguiu  levá-las tão longe quanto seria possível”. Doutro lado, seria bom ressaltar que sempre valorizei o conhecimento das ciências afins, procurando informar-me quanto ao desenvolvimento da antropologia, da economia, da psicologia social e da política.

“Ninguém pode ignorar que é no setor do pensamento científico e tecnológico que o progresso das nações desenvolvidas se mostra mais rápido. Se quisermos atenuar ou superar a distância que nos separa dessas nações, o caminho é um só – conquistar pleno domínio das técnicas sociais modernas, entre as quais se incluem o pensamento científico e a tecnologia fundada na ciência”[8]

A radicalização do pensamento de Florestan: o retorno ao marxismo revolucionário

“… A universidade brasileira, de uma forma geral, cresceu muito, e não se pode negar que o trabalho intelectual se tornou mais sofisticado, mais sério, mais produtivo. A crise intelectual vem do fato de que, na relação entre uma universidade que tinha avançado muito e o espírito reacionário das classes possuidoras na sociedade brasileira, nessa relação a reação conseguiu, pela primeira vez, depois de 64, penetrar nos muros da Universidade. E penetrou através de seus baluartes internos, que estão nas profissões liberais, nos vários campos de ensino e de trabalho intelectual, que realmente eram os alicerces da contra-revolução dentro da universidade. […].”[12]

“Numa sociedade de classes, se a classe trabalhadora não amadurece politicamente, se não se desenvolve como classe independente, o intelectual que se identifica com ela não pode ser instrumental para nada. A menos que ele queira ser instrumental para as suas inquietações, para o seu nível de vida, para um trabalho pessoal criador. Mas, se você vai além disso, você se esborracha. O que aconteceu comigo foi que eu me esborrachei e daí o fato de que, até hoje, não me conformo com o nosso padrão de radicalismo e de socialismo” [13]

 A revolução burguesa no Brasil e a radicalização para uma perspectiva marxista

A revolução socialista e o partido revolucionário

“… A lua-de-mel com a burguesia, com o nacionalismo burguês, com o radicalismo burguês ou com o que se queira está acabada, chegou a seu termo! Não se trata de sair dando coices, chifradas ou marradas, de ficar na ilusão ingênua do ‘quanto pior melhor’. Mas de estabelecer, como parte da vanguarda da classe operária, como este deve manejar a luta de classes com objetivos políticos bem marcados, de curto, médio e largo prazos, e para impedir que os antagonismos existentes só produzam dividendos políticos para as classes dominantes.”[14]

 A crítica ao aliancismo político entre as  classes sociais


[1] Entre os quais citamos Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffortt, Paul Singer…

[2] Entrevista.

[3] O Partido Socialista Revolucionário (PSR), seção brasileira da IV Internacional, foi fundado em agosto de 1939. Foi uma fusão,  em abril de 1939, entre o então Partido Operário Leninista (POL) e os dissidentes do Comitê Regional de São Paulo do PCB uniram-se num Comitê Pró-Reagrupamento da Vanguarda Revolucionária do Brasil. Diversos jovens intelectuais se integrariam ao PSR: Plínio Gomes de Mello, Vítor de Azevedo, José Stacchini, Patrícia Galvão, Florestan Fernandes, Maurício Tragtenberg, Leôncio Martins Rodrigues, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Edmundo Moniz, Bóris Fausto e Ruy Fausto. O Partido  teve como secretário-geral Hermínio Sacchetta e manteve o jornal Orientação Socialista sob seu controle. Vários desses nomes se tornaram intelectuais e docentes, e produziram obras destacadas, consideradas como clássicas  ainda hoje. Em 1951, antes do III Congresso da IV Internacional,  Sacchetta e Stachini afastaram-se do PSR. Sacchetta passou a entender que não era possível defender a União Soviética, pois se tornara  um “estado operário degenerado” e, em 1956, da Liga Socialista Independente (LSI), que tinha como principal referência Rosa Luxemburgo, contando com a presença de Paul Singer, Michael Löwy, Maurício Trangtenberg, Moniz Bandeira, e os irmãos Emir Sader e Éder Sader.

[4] Paulo de Tarso Venceslau,  “Memória: Florestan Fernandes”,  Teoria e Debate, nº 13, jan./fev./mar. 1991.

[5] Florestan Fernandes,  Depoimento  sobre  Hermínio  Sacchetta, in:    Hermínio Sacchetta,  O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos,  Campinas: Pontes/Edunicamp, 1992, p. 75.

[6] Entrevista de Florestan.

[7] Bárbara Freitag ,  Florestan Fernandes por ele mesmo,  Estudos Avançados 10 (26), 1996, p.116.

[8] Florestan Fernandes

[9] Bárbara Freitag ,  Florestan Fernandes por ele mesmo,  Estudos Avançados 10 (26), 1996, p.116.

[10] Karl Marx, Contribuição à crítica da economia política…

[11] René Dreiffuss,

[12] ESCRITA/ENSAIO Nº8, Florestan: a pessoa e o político [entrevista], 1980.

[13] ESCRITA/ENSAIO Nº8, Florestan: a pessoa e o político [entrevista], p.22.

[14] Florestan Fernandes,  O que é revolução,  São Paulo: Brasiliense, 1981, p.100-01.

[15] Florestan Fernandes,  O que é revolução, p.102.

[16] Fernando Henrique,  Folha de São Paulo, 11/ago/1985, p.5.


 

Bibliografia consultada

CHAVES, Adriana J.F. Florestan Fernandes: um sociólogo pensando a educação. Idéias educacionais de Florestan Fernandes – Década de 1940-1960. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 1997. Tese de doutorado. (mimeo).

COHN, Gabriel. Padrões e dilemas: o pensamento de Florestan Fernandes. In: MORAES, Reginaldo. In: ANTUNES, Ricardo e FERRANTE, Vera B. (org.). Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986.

DREIFUSS, René Armand. 1964. a conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.

ESCRITA/ENSAIO Nº8, Florestan: a pessoa e o político [entrevista], 1980.

FERNANDES, Florestan. A questão da ditadura . São Paulo: T.A Queiroz Editor. 1982.

FERNANDES, Florestan. A sociologia numa era de revolução social . 2ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. [1ed. 1962].

FERNANDES, Florestan. O que é revolução. São Paulo: Brasiliense, 1981.

FERNANDES, Florestan. Que tipo de república? São Paulo: Brasiliense, 1986.

FERNANDES, Florestan. Revolução burguesa no Brasil. Ensaio de Interpretação Sociológica. São Paulo: Zahar Editores, 1975

FOLHA DE S. PAULO, 11/ago./1985.

IANNI, O. Florestan Fernandes e a formação da sociologia brasileira. In: Octavio Ianni (org.). Florestan Fernandes. São Paulo: Ática, 1986. p.7-45. (Sociologia).

RIDENTI, Marcelo Siqueira. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Editora UNESP, 1993.

SILVA, Luiz Fernando. Pensamento social brasileiro. O marxismo acadêmico entre 1960 e 1980. São Paulo: Corações e Mentes, 2004.